Crítica: round 6 entrega uma narrativa envolvente sem cair no clichê do terror

CRÍTICA: Round 6 tem narrativa envolvente sem cair no clichê do horror

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K-Drama da Netflix soube aproveitar a tensão dos jogos macabros sem abandonar o desenvolvimento dos personagens

Houve um momento em que Jogos Mortais era uma das principais referências do terror dos anos 2000. Quer dizer, a franquia ainda tem milhares de fãs, mas, especificamente na época de seu lançamento, sua popularidade atingiu escala mundial. O mesmo acontece hoje com Round 6, nova série da Netflix, porém na era digital, onde um viral surge em questão de minutos.

Existe um certo encanto por parte dos espectadores, entusiastas do gênero de terror ou não, por histórias que envolvam algum tipo de competição. Foi dessa forma que Jogos Mortais conquistou o público, assim como outras produções que envolvem disputas, como Jogos Vorazes e Jogador Nº1 – não coincidentemente, todos eles com “jogo” no título ou na temática. Round 6 é uma série de suspense que replica alguns estilos já conhecidos no horror e no gênero de tortura e consegue o êxito por trazer personagens sólidos de uma maneira que não sejam rasos.

Um jogo que vale bilhões

Crítica: round 6 entrega uma narrativa envolvente sem cair no clichê do horror
História de Round 6 reúne cidadãos sul-coreanos com dificuldades financeiras em um jogo com prêmio bilionário. (Imagem: Netflix/Divulgação)

Conhecido também como Squid Game, Round 6 é um K-Drama da Netflix que apresenta um jogo de sobrevivência cujo vencedor leva uma grande quantia em dinheiro. Os participantes são cidadãos sul-coreanos que são apostadores ou estão passando por algum tipo de dificuldade financeira. O que não é explanado a eles é o quão mortífero o jogo se torna já no primeiro dos seis rounds.

A primeira coisa que chama Round 6 chama a atenção é sua escolha de não focar apenas no jogo em si. Apesar de ser o mote principal da história, o diretor Dong-huyk Hwang oferece ao espectador a oportunidade de conhecer muito mais por trás dos personagens principais que estão envolvidos no tal game. Inclusive, este é provavelmente um dos motivos pelos quais a série está fazendo tanto sucesso mundialmente, caminhando para o show mais visto da plataforma de streaming. Simplesmente porque há uma boa construção de figuras e o público se vê torcendo por elas mesmo sabendo de seus passados conturbados.

A cada participante eliminado do jogo — e, quando se diz eliminado, é eliminado mesmo — maior é o prêmio arrecadado até a última rodada. Todos os rounds são fundamentados em um tópico específico (este ficará a seu cargo para conferir pessoalmente na série) e traz uma interessante contradição entre a leveza da ideia e o horror das resoluções mortais.

Crítica: round 6 entrega uma narrativa envolvente sem cair no clichê do horror
Além da narrativa envolvente, um dos maiores méritos da produção é a presença de uma personalidade marcante nos participantes. (Imagem: Netflix/Divulgação)

Do ponto de vista narrativo, a série consegue fazer o que precisa ser feito e de maneira perspicaz, prendendo o espectador em todos os nove episódios até o mesmo descobrir o que acontece no fim dessa jornada macabra. Há também a relação do jogo em si como um sistema de opressão em que, em diversos momentos, fica clara a intenção do diretor em criticar a maneira como a sociedade trata pessoas em situação de fragilidade.

Reforçando esse tópico, a série escolhe ir pelo caminho contrário ao de Jogos Vorazes e, por exemplo, põe os personagens em uma situação de mercê ao sistema ao invés de colocá-los como revolucionários contra ele. As cenas de gore existem, mas, dentro desse contexto caótico, elas fazem sentido e dão o toque tenso que exige o horror. Outro momento interessante da série é a apresentação das camadas do enredo. Enquanto acontece o jogo, outros fatores são acompanhados simultaneamente e trazem dinamismo para a história.

Identidade visual marcante e empatia com os jogadores

Crítica: round 6 entrega uma narrativa envolvente sem cair no clichê do horror
Boneca macabra do episódio “Batatinha 1,2,3” ficou famosa na internet. (Imagem: Netflix/Divulgação)

Particularmente, duas coisas ficam bem visíveis quanto ao caráter viral da série. A primeira delas é a identidade visual bem marcante. Mesmo que você ainda não tenha visto Round 6, muito provavelmente você já viu a boneca de um dos jogos por aí nas redes sociais.

Cada jogo tem um esquema e regras próprias, que só são revelados aos participantes apenas na hora do embate. Todos os cenários são bem imersivos e casam bem com a proposta de cada desafio. Na verdade, não só os locais de embate, mas o próprio ‘saguão’ de espera tem uma forte identidade mesmo com uma decoração simples. Tudo isso é válido para a memória que os espectadores criam dos jogadores.

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Jung Ho-yeon interpreta uma das melhores personagens da série, a jogadora 067. (Imagem: Netflix/Divulgação)

A segunda característica que eleva a série ao mainstream é a sua capacidade de tornar o público empático com os jogadores. Como dito anteriormente, as figuras principais têm o seu desenvolvimento de maneira que o público torce por eles e não apenas esperam a sorte aparecer a seu favor.

Dentro do universo da série, os personagens são chamados por número, sendo os mais recorrentes: Seong Gin-hun (456), Kang Sae-byeok (067), Cho Sang-woo (218) e Jang Deok-su (101). A relação deles entre si e com outros jogadores é bem atrativa de se assistir. A internet com certeza já tem os seus favoritos, mas cada membro do núcleo principal ou secundário funciona bem para que o suspense da série se prolongue até a resolução da trama. O episódio que mais reforça isso é quinto, “Gganbu“. Não é à toa que é o episódio mais bem avaliado no IMDb, com 9.4 pontos. É ali onde as atuações mais brilham.

Os deslizes do K-Drama

Crítica: round 6 entrega uma narrativa envolvente sem cair no clichê do horror
K-Drama sabe engatar a narrativa muito bem, mas não sabe como encerrar certos núcleos. (Imagem: Netflix/Divulgação)

Tendo em vista todos os lados positivos de Round 6, há alguns momentos que os deslizes não escapam da visão do público. A começar pelas pontuais conveniências de roteiro, embora nada chegue perto de estragar a experiência. Em especial, uma delas que é bem discernível e acontece mais ao fim da série. O destino de dois personagens não fazem jus às suas trajetórias durante todos os episódios. E isso não é nenhuma espécie de favoritismo, mas sim o reconhecimento de uma clara e preguiçosa solução que os produtores encontraram para contemplar um final já esquematizado nesta temporada.

Alguns ganchos não são bem esclarecidos e a série parece saber descrevê-los muito bem no início, mas não a resolvê-los no fim. Dado o caráter viral de Round 6, é provável que a Netflix busque a renovação para uma próxima temporada. Se este for o caso, será mais uma vez em que uma série de temporada é estendida sem necessidade — e a pedido de ninguém.

Vale a pena assistir Round 6?

Crítica: round 6 entrega uma narrativa envolvente sem cair no clichê do horror
Prestes a se tornar a produção de maior audiência da Netflix, Round 6 é uma boa dose de adrenalina e entretenimento. (Imagem: Netflix/Divulgação)

A resposta é sim. Existem muitos virais na internet de qualidade questionável, mas este não é o caso. Round 6 é uma série de boa qualidade que sabe o que quer e como quer contar sua história. Embora tenha pequenos deslizes, a produção consegue entregar personagens cativantes e uma história que busca fazer uma crítica através do horror das ações humanas sob a pressão do extremismo social, político e econômico.

Round 6 também é a comprovação da qualidade das produções asiáticas que, nos últimos tempos, têm conquistado cada vez mais fãs brasileiros, inclusive em outras plataformas, como no cinema e na música. Alice in Borderland, outra série da Netflix, traz uma trama parecida em que pessoas precisam sobreviver em disputas de jogos eletrônicos numa versão paralela de Tóquio. Vale a pena conferir mais!

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