Oscar 2020: “Democracia em Vertigem” pode ganhar Melhor Documentário?

Vertigem Petra
O documentário "Democracia em Vertigem", da Netflix, é o concorrente brasileiro na premiação de Hollywood. Mas o longa tem chances de ganhar?
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Oscar 2020: "Democracia em Vertigem" pode ganhar Melhor Documentário?

O Oscar 2020 está chegando e, com ele, a chance de um documentário brasileiro sair com a estatueta na mão. Sim, estamos falando do polêmico documentário da Netflix dirigido por Petra Costa: “Democracia em Vertigem“.

A categoria é uma das mais importantes da premiação Hollywoodiana, embora não seja considerada uma das principais (Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro). O Oscar surgiu em 1929, mas a categoria feita para premiar o melhor documentário estreou apenas em 1941. Atualmente, ela se divide em duas: Melhor Curta-Documentário e Melhor Documentário.

A indicação de “Democracia em Vertigem” foi uma surpresa boa para o cinema brasileiro, que depositava suas esperanças em “A Vida Invisível“, dirigido por Karim Aïnouz e com a participação de Fernanda Montenegro, a dama da dramaturgia nacional.

O brasileiro Democracia em Vertigem concorre como melhor documentário
O brasileiro Democracia em Vertigem concorre como melhor documentário

Assim como outros filmes brasileiros nos últimos anos – incluindo “Bingo”, uma das melhores produções da década, e até se pensarmos na atuação de Fernanda em “Central do Brasil” – “A Vida Invisível” foi esnobada pela Academia. A indicação de Melhor Documentário é uma vitória para o país, que costuma ser menosprezado pelos integrantes do comitê da premiação de Hollywood.

O longa brasileiro na disputa narra o processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, apontando o ato como bode expiatório para o denominado golpe que visava colocar Michel Temer no poder, e em retaliação às atitudes de Dilma ao não negociar com a Câmara e com o Congresso. No contexto de golpe, o ato é visto como um forte soco na recente democracia brasileira, já que a Ditadura Militar acabou em 1985.

Mas será que o documentário possui chances reais de levar a estatueta para casa?

O que faz um documentário ganhar o Oscar?

Alguns pontos principais são técnicos, estrutura narrativa e a maneira como é contada a história. Ainda assim, não existe uma fórmula: afinal, depende dos votos do comitê do Oscar para que o vencedor seja escolhido.

Como qualquer filme da competição, é importante ressaltar que uma forte campanha em Hollywood é, muitas vezes, o fator definitivo para conseguir a estatueta, assim como pensar que o longa deve se adequar aos padrões do comitê ou ao conceito que eles possuem do que é um documentário.

As polêmicas envolvendo “Democracia em Vertigem”

Como estamos falando do filme, é impossível deixar de abordar as polêmicas entre os brasileiros que esquentam as redes sociais desde que foi lançado e muito mais agora, com o documentário nos holofotes do mundo do cinema.

O amor e o ódio ao PT

O ponto principal que gerou críticas ao filme é o fato de Petra Costa defender e enaltecer o ex-presidente Lula, mostrando seu impacto na classe trabalhadora e como o ex-presidente se tornou um ícone popular.

Oscar 2020: "Democracia em Vertigem" pode ganhar Melhor Documentário?
Lula entre apoiadores em São Bernardo do Campo no dia em que se entregou à Polícia Federal, como mostrado no documentário. CREDITO-FRANCISCO PRONER (REUTERS)

A diretora aparece utilizando adesivos de Lula quando vota pela primeira vez, além de narrar a história do começo ao que ela chama de fim da democracia, quando ocorre o processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, apontado como um golpe, para que Michel Temer chegasse ao poder.

Em época de polarização política, é natural que os antipetistas e bolsonaristas critiquem ferozmente o filme sem nem tê-lo visto. Portanto, essa reação polarizada em relação ao documentário é “nada menos do que o esperado”, pois é assim que o Brasil se encontra desde as eleições de 2014.

Como o Governo Bolsonaro se põe, principalmente, como antipetista, tratou logo de criticar e desmerecer o documentário de Petra Costa. Através da conta oficial da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, o governo criticou a diretora e o documentário:

O sumiço das armas

Uma das outras polêmicas do filme é o apagamento digital das armas que foram implementadas na cena de morte do jornalista Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar (mentor dos pais de Petra Costa na luta contra a Ditadura Militar) e de Ângelo Arroyo. Os dois eram dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e foram executados pela Ditadura no do dia 16 de dezembro de 1976.

Conforme apontado pela Revista Piauí, a foto exibida no filme aparece sem um revólver e sem uma carabina. Segundo a revista, as armas aparecem uma fotografia que está anexada ao laudo de morte de Pomar, com a data de 27 de dezembro de 1976.

Em resposta à Piauí, na mesma matéria, Petra justificou a ausência das armas: “Foi amplamente reconhecido que a polícia plantou armas ao redor dos corpos dos ativistas assassinados, como uma desculpa para seus assassinatos brutais.” Na mesma entrevista, a diretora também disse que a própria Comissão da Verdade apresentou que as armas foram plantadas após a morte de Pedro e que, por isso, decidiu remover as armas para homenagear o mentor dos pais.

As críticas de Bial

O apresentador Pedro Bial usou seu espaço em uma entrevista à Rádio Gaúcha para criticar ferozmente o documentário de Petra Costa. Ele disse que o filme é “insuportável” e que “vai contando as coisas num pé com bunda danado”, ainda dizendo que a narração de Petra é “miada, insuportável, onde ela fica choramingando o filme inteiro”.

A ex-presidente Dilma rebateu o apresentador em seu Twitter, apontando-o como “misógino e sexista”:

Afinal, “Democracia em Vertigem” pode ganhar o Oscar?

Não é a primeira vez que o Brasil é representado nesta categoria. Na verdade, antes de “Democracia em Vertigem”, já foram indicados os longas “Lixo Extraordinário“, de Lucy Walker, em 2011, e o filme “O Sal da Terra“, de Juliano Ribeiro Salgado, em 2015.

O tom pessoal do documentário, ao relacionar o público do cenário da política brasileira com o privado da vida de Petra Costa dá um toque especial ao longa, o que pode ser um grande ponto a seu favor. A direção de fotografia e as imagens exclusivas de Ricardo Stuckert também: o talento dele é um dos as aspectos técnicos que mais impressionam em “Democracia em Vertigem”.

Stuckert acompanhou as campanhas eleitorais do PT, incluindo a de Fernando Haddad, realizada em 2018. Além de trabalhar com fotografia política, ele também é conhecido pelo seus retratos e imagens dos povos indígenas.

Mesmo assim, é importante lembrar: estamos falando de um documentário brasileiro em meio a vários concorrentes que falam sobre guerra (que é um tema conhecidamente favorito dos votantes da Academia) e um longa produzido pelo casal Barack e Michelle Obama – ex-presidente e ex-primeira-dama dos Estados Unidos.

É importante lembrar que a vitória do Oscar também é fundamentada na campanha feita para que o filme ganhe nos Estados Unidos, já que a premiação “não é um festival de cinema internacional, mas sim extremamente local” – citando o diretor Bong Joon-ho, de “Parasita”.

Cena do documentário "Indústria Americana", forte candidato ao Oscar 2020.
Cena do documentário “Indústria Americana”, forte candidato ao Oscar 2020.

Portanto, mesmo que “Democracia em Vertigem” possa se destacar por sua narrativa em primeira pessoa e imagens que reproduzem a história política das últimas duas décadas no país, o favorito para a categoria é “Indústria Americana”. Afinal, é só lembrarmos o foco do Oscar: Hollywood, a indústria estadunidense de cinema.

O longa é a aposta da Revista Time, que argumenta que, “assim que os votantes verem o nome ‘Obama’, votarão em ‘Indústria Americana’.” E acredito que não devemos ter dúvidas quanto a isso. O New York Times também aposta nesse filme.

Agora, é só esperar o dia 9 de fevereiro para descobrir quem será o grande vencedor. Para quem você está torcendo no Oscar 2020?

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