Especialista realizando teste de hiv

Entenda os riscos da nova variante do HIV

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Variante VB é mais transmissível e pode gerar casos mais graves em menor tempo. Veja como o tratamento de diagnosticados vem sendo feito

Por mais que a pandemia da COVID-19 ainda seja um de nossos problemas atuais, uma nova variante do HIV está provocando preocupações em todo o mundo por ser mais contagiosa. A variante VB do vírus HIV chamou a atenção dos especialistas recentemente, mas dados apontam que está em circulação na Holanda desde a década de 80.

Reunimos as informações sobre esta recente descoberta da medicina, além de dados sobre estudos para uma vacina contra o HIV — uma possibilidade para o controle da pandemia do vírus, que encontra dificuldades devido a desigualdades no acesso ao tratamento de infectados.

Qual a diferença da variante VB para as outras variantes do HIV?

O vírus HIV, responsável por causar a síndrome da imunodeficiência humana (AIDS ou SIDA, no Brasil) foi descoberto pela primeira vez em 1983 por Luc Montagnier, do Instituto Pasteur na França. Entretanto, casos de cinco jovens homossexuais com uma grave pneumonia foram registrados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA em 1981, e mais tarde foi confirmado que eles haviam desenvolvido AIDS — a doença causada pelo HIV, que ataca as células de defesa do sistema imunológico e permite o desenvolvimento de doenças oportunistas. É importante lembrar que uma pessoa não pode morrer de AIDS, mas sim das possíveis infecções que seu corpo pode ter devido ao sistema imunológico estar fragilizado.

Imagem de computador do nova variante do hiv
Nova variante surgiu pela primeira vez durante os anos 1980, mas voltou a aparecer em 2021 (Foto: BBC)

A maior preocupação que a variante VB traz aos especialistas é que o aumento da carga viral do HIV no sangue pode ser de 3,5 a 5,5 vezes maior do que as demais variantes conhecidas. Ou seja, caso o tratamento for adiado ou a pessoa nem mesmo souber que está com a nova variante do HIV, os problemas podem ser imensos. O nome VB é relacionado com dois pontos: V de Virulenta e B do subtipo B, ao qual ela pertence. Se sabe que a linhagem é ligada ao HIV-1, o que mais circula no Brasil.

Outra característica que diferencia esta nova variante do HIV é que ela consegue destruir os linfócitos de nosso sistema imunológico em uma velocidades duas vezes maior. É como se o “bloqueio” para impedir a passagem de doenças fosse apagado.

Em casos sem tratamento, a variante VB também consegue causar problemas em menor tempo. Leva apenas nove meses para que o sistema imunológico de uma pessoa fique completamente à deriva (com baixo número de linfócitos) em homens com idade entre 30 e 39 anos. As demais variantes do HIV levam cerca de 3 anos para causar a mesma situação.

Mulher detectando variante vb
Especialistas perceberam padrão na Holanda e investigaram casos recentes (Foto: Reprodução/Internet)

Também se sabe que a nova variante do HIV é mais transmissível, de acordo com o especialista que assinou o documento com as primeiras informações. Os primeiros sintomas aparecem em cerca de 3 a 5 anos depois do primeiro contato de uma pessoa com o HIV. Outras variantes do mesmo vírus levam até sete anos para apresentar sinais que levam uma pessoa a procurar um especialista.

Como a variante VB do HIV foi descoberta?

Os primeiros dados sobre a nova variante do HIV foram publicados na revista Science, logo após a Universidade de Oxford detectar a cepa enquanto trabalhava no projeto BEEHIVE. Este estudo tem o foco principal em identificar possíveis mudanças no vírus HIV e os especialistas coletam amostras por toda a Europa e Uganda.

Pessoa fazendo teste durante pandemia de hiv
Testagem precisou ser realizada para que casos fossem monitorados (Foto: Reprodução/Internet)

17 pessoas foram identificadas com a variante VB, das quais 15 delas viviam na Holanda. Ao perceberem o padrão, os cientistas realizaram um grande levantamento com base nos dados de 6.700 pessoas que testaram positivo para o HIV, e logo veio a surpresa: outros 92 homens holandeses que fazem sexo com outros homens estavam com a nova variante. O número subiu para 109 infectados.

Ao realizar o sequenciamento genético da variante VB, os cientistas descobriram que a circulação começou por volta dos anos 80, mesma época em que se descobriu o “principal vírus do HIV”. A grande explosão de casos aconteceu durante os anos 2000 e a transmissão foi reduzida por volta de 2010, quando as campanhas contra HIV na Holanda começaram a surtir efeito.

Por que a nova variante do HIV é preocupante?

Além de permitir que o vírus que causa a AIDS circule em uma velocidade maior, a variante VB também provoca casos mais graves em um tempo menor do que as demais cepas de HIV. Dessa forma, os especialistas sempre lembram que a melhor forma de se proteger é sempre fazer sexo com proteção.

Um teste sempre deve ser feito quando você tiver relações sexuais sem camisinha para que no caso de uma possível infecção, o tratamento comece o quanto antes. O diagnóstico é a melhor forma de permitir que uma pessoa continue tendo uma vida completamente normal.

Os tratamentos atuais funcionam para a nova variante do HIV?

O mesmo estudo publicado na revista Science confirma que os tratamentos atuais com coquetel de remédios e acompanhamento periódico seguem sendo válidos para que os sintomas da variante VB sejam combatidos. Os medicamentos antirretrovirais (ARV) são a opção mais viável e o primeiro deles surgiu em 1987, quando o AZN foi aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) nos EUA.

Uma pesquisa realizada em 2017 por especialistas da Universidade de Bristol comprovou que pessoas com 20 anos que testaram positivo e tomam o coquetel de remédios diariamente desde 2010 podem ter uma expectativa de vida média de 78 anos. Em relação aos ingleses que se tratavam em 1996, a expectativa média de vida é 10 anos mais alta.

Coquetel de remédios que uma pessoa recebe após teste positivo de hiv
Remédios utilizados hoje em dia são eficazes contra a variante VB (Foto: Reprodução/Internet)

Um dos grandes problemas é a demora das pessoas em procurarem diagnóstico após terem relações sexuais sem proteção. De acordo com o último levantamento do Ministério da Saúde do Brasil em dezembro de 2021, 53% dos casos no Brasil são de pessoas que possuem entre 20 e 34 anos.

Esta é a mesma faixa de idade de pessoas que morreram alguns meses após receberem o diagnóstico entre os anos 1980 e 1990. Há cerca de 1 milhão de infectados no Brasil desde a descoberta da doença.

Há alguma vacina contra o HIV?

Desde quando o vírus HIV foi descoberto durante os anos 80, 33 opções de vacina tentaram ser desenvolvidas como uma forma de evitar infecções. Mas os estudos não foram muito longe. Entretanto, especialistas estão desenvolvendo novos estudos para chegarem ao esperado dia de anunciar uma vacina contra este vírus. Conheça.

Estudo Mosaico

No Brasil, o estudo Mosaico já realiza testes em pessoas para saber das possíveis reações da vacina e se a produção em alta escala pode ser feita. Esta análise está sendo feita com pessoas que moram na Argentina, Brasil, Itália, Peru, México, Polônia, Espanha e Estados Unidos e é desenvolvido pela HVTN, Janssen Vaccines & Prevention BV, NIAID e USAMRDC, com envolvimento de centros de pesquisa dos EUA e Brasil.

Cerca de 3.000 pessoas (a meta é de 3.800 participantes) já tomaram a vacina ad26, e além de efeitos colaterais que são comuns nestes estudos, não foram constatados graves problemas de saúde.

Logomarca do estudo mosaico
Brasileiros estão testando vacina contra HIV (Fonte: Captura de tela/Showmetech)

Ainda não se sabe sobre a real eficácia da vacina (se ela previne ou combate o HIV), mas os resultados devem ser apresentados em 2024. Homens cis com idade entre 18 e 60 anos são o grande foco do estudo e é necessário que a pessoa tenha testado negativo para o HIV.

Uma outra opção de imunizante contra o vírus que causa a AIDS também vem sendo desenvolvida pela Universidade Federal de São Paulo, mas o baixo investimento no setor de saúde é um dos motivos pelo qual o estudo não avança com a velocidade que deveria.

Vacina contra HIV com tecnologia de RNA mensageiro

O conhecimento adquirido na corrida da vacina para frear a pandemia de COVID-19 pode ser utilizado para o combate de outras doenças. Um estudo do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA que foi compartilhado na revista Nature Medicine em dezembro do ano passado nos deu esperanças de uma vacina para humanos estar realmente perto de ser desenvolvida.

Testes realizados em camundongos que receberam duas doses da vacina já comprovam que, em relação às outras opções que haviam sido desenvolvidas, a nova vacina é mais eficaz e pode fazer com que o sistema imunológico realmente produza anticorpos contra o HIV.

A exibição de várias cópias da proteína autêntica do envelope do HIV é uma das características especiais de nossa plataforma, que imita a infecção natural

Paolo Lusso, do Laboratório de Imunorregulação do NIAID (Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla em inglês) dos EUA

A mesma vacina também foi aplicada em macacos-rhesus. Além da dose primária, os animais também receberam reforço durante cerca de um ano, e os cientistas optaram por realizar testes com diversas variantes do HIV. Durante a semana 58, todos os macacos que estavam sendo testados já contavam com “níveis de células T e anticorpos neutralizantes que seriam eficazes conta 12 cepas de HIV”, de acordo com a publicação.

Os resultados foram diferentes no caso de imunodeficiência símia-humana (SHIV), mas ainda assim importantes. Quando expostos ao vírus pela mucosa retal, dois dos sete macacos não apresentaram problemas de saúde. Cinco deles tiveram um leve retardo na infecção depois de cerca de oito semanas. Os animais que não estavam com a vacina (receberam placebo) começaram a apresentar sintomas da infecção depois de três semanas.

Pessoa preparando vacina contra hiv
Vacina foi bem aceita por camundongos e macacos; humanos serão testados em breve (Foto: Reprodução/Internet)

Foi possível perceber que o risco de infecção dos animais que estavam vacinados foi 79% mais baixo em relação aos que não tinham a recebido vacina. Os efeitos colaterais incluem perda de apetite e outras reações mais leves. Com o sucesso da pesquisa em dois tipos diferentes de animais, a vacina com RNA mensageiro contra HIV será testada em 56 estadunidenses saudáveis (sem o vírus do HIV). Nos resta esperar pelos próximos passos.

Como a desigualdade atrapalha o controle da pandemia de HIV?

Pessoas que não são testadas e também não são acompanhadas periodicamente possuem uma maior chance de desenvolver AIDS, além de transmitir o vírus para outras pessoas. Com isso em mente, os governos de todo o mundo precisam atuar para que todos os continentes tenham um controle sobre os casos.

Infelizmente, sabemos que isso não é verdade e basta olhar para a continente africano, que vive uma grave crise de saúde há anos. 39% das novas infecções de HIV de 2020 foram registradas dentro da África subsaariana, de acordo com UNAIDS.

Pessoa negra em uma casa
Desigualdade ainda precisa ser corrigida para não termos ainda mais casos de HIV (Foto: Reprodução/Internet)

E estes dados não mostram problemas apenas no controle de HIV, já que a própria vacinação de COVID-19 no continente africano também é um problema que precisa ser resolvido. Até o fechamento desta matéria, apenas 8,67% de todo o continente africano havia recebido as duas doses da vacina contra a COVID-19.

A desigualdade precisa ser corrigida o quanto antes para que a pandemia de HIV não saia ainda mais de nosso controle. O maior caminho para isso é o grande investimento em ciência para que as vacinas possam ser desenvolvidas com a maior assertividade.

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Veja também

Confira informações sobre o primeiro remédio eficaz no tratamento contra a COVID-19.

Fontes: News Cientist l Euro News l Veja l G1 l Revista Nature l Estudo Mosaico l Our World In Data

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