Facebook pode perder mais de US$ 2 trilhões no caso Cambridge Analytica

Entenda porque as ações do Facebook perderam mais de 30 bilhões em valor essa semana, e como a empresa corre o risco de sofrer uma multa de trilhões de dólares.
Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump
Empresa utilizava o Facebook para coletar dados sem o consentimento dos usuários

Uma das companhias responsáveis pelo sucesso da campanha eleitoral de Donald Trump está sendo acusada de ter violado a privacidade de milhões de usuários norte-americanos do Facebook.

De acordo com uma extensa investigação realizada pelos jornais The New York Times e The Guardian, a Cambridge Analytica, uma companhia britânica de análise de dados, teve acesso indevido às informações pessoais de mais de 50 milhões de usuários estadunidenses da rede social. O objetivo da prática, por sua vez, seria impulsionar a campanha eleitoral de Donald Trump, em 2016.

Embora muito já se fale a respeito desta eleição em específico, todas as informações sobre o tema apontavam para os russos, que teriam tido forte influência na vitória do partido republicano sobre os democratas.

Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump; Cambridge Analyitica
Alexander Nix, CEO da Cambridge Analytica

Nestas acusações, o partido Democrata alega que a Rússia está por trás de vazamentos que prejudicaram a eleição de Hillary Clinton. Contudo, a Cambridge Analytica é um problema completamente diferente – e que pode ter tido um impacto ainda maior na vitória de Trump.

Isto porque, de acordo com informações vindas destes dois jornais, a companhia violou as políticas do Facebook e se utilizou de brechas na rede social para construir perfis comportamentais dos usuários. Com estas informações, a empresa pôde então criar anúncios direcionados e que foram utilizados a favor da eleição de Trump e do Brexit, também em 2016.

Em ambos os casos, a empresa conseguiu não só coletar e tratar as informações, mas também prever o direcionamento político dos internautas.

Mas o que há de ‘novo’ nisso?

Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump

Embora a Cambridge Analytica esteja no centro de uma polêmica de violação de privacidade, as atitudes da empresa, ao menos a princípio, podem até se parecer compatíveis com o que o Facebook já faz. Afinal, não é nenhuma novidade que a rede social também coleta (e vende) quase todas as informações possíveis dos seus usuários.

Isto, certamente, nos faz perguntar o que há de tão diferente nas atitudes de uma empresa tão menor; por que este caso chocou tanta gente?

Primeiramente, o que mais chama atenção é a forma como a Cambridge Analytica teve acesso a tais dados: segundo o próprio Facebook, a empresa se “aproveitou” da “ingenuidade” dos usuários, coletando as informações em testes disfarçados – como aqueles para saber ‘como você se pareceria se tivesse o gênero oposto’.

Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump
Testes do Facebook têm acesso às informações do seu pefil

Ao acessar estas páginas com suas contas da rede social, os usuários voluntariamente cederam suas localizações, fotos, curtidas e até mesmo informações sobre seus amigos. A grande diferença, no entanto, é que nenhum deles sabia que estes dados seriam manipulados por outra empresa e para fins políticos.

Inclusive, é justamente a finalidade dada às informações o que mais assusta os internautas. Pela primeira vez na história da internet, pudemos perceber que as informações aparentemente ‘inocentes’ podem ser utilizadas não só para impulsionar a venda de um produto, mas também para influenciar toda uma eleição presidencial.

Mesmo sem o controle de nenhuma dessas contas, tendo apenas o acesso a tais informações, a Cambridge Analytica foi capaz de traçar perfis comportamentais e criar anúncios precisamente direcionados.

As diferentes versões do caso

Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump; Cambridge Analyitica

Embora a matéria conduzida pelo The New York Times destaque o caso como de responsabilidade do Facebook, a companhia de se defende ao dizer que, embora tenha descumprido as políticas de privacidade da rede social, o que o aplicativo que cedia informações à Cambridge Analytica só o fazia porque os próprios usuários permitiram.

O Facebook, no entanto, não gostou nada de ser ‘enganado’. Tanto que baniu a Cambridge Analytica de suas plataformas. Mas não pense você que toda esta indignação é apenas ética:

Informações também levantadas pelo The New York Times junto ao The Guardian revelam que a gigante tinha conhecimento de que as informações coletadas nos testes eram armazenadas e vendidas por seus criadores. Todavia, em vez de tomar medidas efetivas contra a ação, apenas solicitou que a Cambridge Analytica deletasse os dados armazenados.

O que, ao que tudo indica, a empresa não fez.

Facebook pode enfrentar multas severas

Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump

Para David Vladeck, ex-diretor do escritório de proteção do consumidor da Comissão Federal do Comércio (FTC), caso seja declarado como responsável pela violação da privacidade dos seus usuários, o Facebook pode ser multado em até US$ 40 mil por cada usuário afetado. No total, este valor poderia ultrapassar os US$ 2 trilhões.

“Está claro que haviam relatórios sobre a existência e compra destas informações em 2015. Parte da explicação que o Facebook terá de dar às pessoas é por que foram tão inefetivos em coibir estas atitudes e em garantir que os dados fossem, de fato, destruídos.” disse Vladeck em entrevista ao Financial Times

Com isto, fica claro que o interesse da rede social em se desvincular do incidente não se deve apenas ao impacto negativo em sua imagem, mas também às possíveis sanções legais que pode sofrer tanto nos EUA quanto no Reino Unido.

Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump
Ações do Facebook fecharam o dia em queda nesta segunda-feira (19)

Além disso, a repercussão das manchetes teve um efeito imediato nas ações da empresa, que caíram 6,8%. Já em valor de mercado, por sua vez, a gigante perdeu quase US$ 37 bilhões.

“Alguém precisa ser responsabilizado por isto. É a hora de Mark Zuckerberg parar de se esconder por trás da sua página no Facebook” afirmou Damian Collins, chefe da Comissão de Supervisão Digital do parlamento britânico

Agora, o medo dos investidores é que, por causa da polêmica, a empresa, além de todo o setor das gigantes tecnológicas, sofra com pressões maiores do Estado. Tanto que as ações da Alphabet, dona do Google e que nem foi citada no tema, também caíram em 3,2%.

Steve Bannon e a campanha de Trump

Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump
Steve Bannon (foto) era o estrategista de campanha de Trump em 2016

Por fim, mais um capítulo para adicionar estranheza a todo este enredo é a ligação entre a Cambridge Analytica e Steve Bannon – nome que, em 2016, se tornou o principal estrategista da campanha de Donald Trump.

Bannon é apontado como o vice presidente da Cambridge Analytica. A companhia, por sua vez, é pertencente ao Strategic Communications Laboratories (SCL Group), empresa especializada na mineração de dados e que, segundo seu próprio site, atua na análise de dados comportamentais há mais de 25 anos.

O partido republicano viu na Cambridge Analytica uma forma de fazer frente aos democratas, que tinham um amplo apoio na web até 2016. A empresa também esteve envolvida nas campanhas de Ted Cruz e Ben Carson, ambos do partido.

De acordo com o Facebook, o aplicativo coletor dos dados foi encomendado pela própria SCL a Aleksandr Kogan, professor do departamento de neurociência da Universidade de Cambridge. Aleksandr seria o principal responsável por criar o app e por repassar as informações à Cambridge Analytica.

Embora o aplicativo de Aleksandr tenha tido acesso a ‘apenas’ 270 mil perfis, mais de 50 milhões de pessoas tiveram suas informações coletadas indiretamente. Afinal, quem realizava login no app também dava acesso aos dados de toda a sua lista de amigos.

Como os usuários podem se proteger

Facebook: entenda a polêmica envolvendo a campanha de Donald Trump

Primeiramente, é preciso deixar claro que nenhuma perfil (ou o Facebook em si) foi hackeado pela Cambridge Analytica. A ‘brecha’ da qual tanto se fala é a irresponsabilidade da rede social em permitir que os dados coletados por um aplicativo fossem repassados a outra instituição.

A Cambridge Analytica nunca precisou se esconder, tampouco esconder a sua tamanha intimidade com a análise de dados para fins políticos. O que a empresa tentou ocultar foi o fato de ter o Facebook como sua principal fonte de pesquisa.

Contudo, ainda assim, não é preciso abandonar completamente o Facebook. Para aqueles que desejam manter suas contas ativas na rede social, ainda que muitos veículos e especialistas recomendem o contrário, basta ter mais cuidado com a forma de se utilizar sua conta – talvez, ela contenha informações muito mais valiosas que o número do seu RG ou CPF, por exemplo.

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Com informações de: CNET

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