Grupo cria “vacina” contra novo coronavírus que pode ser feita em casa, mas será que funciona?

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"Vacina" aplicada via spray pelo nariz promete proteger contra o vírus da COVID-19, mas peca pela falta de testes com seriedade científica
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Grupo cria "vacina" contra novo coronavírus que pode ser feita em casa, mas será que funciona?

Um grupo de cientistas civis que fazem parte do da RaDVaC (sigla para Rapid Deployment Vaccine Collaborative, ou grupo colaborativo para o desenvolvimento rápido de vacina em português) publicou em seu site a receita para o que eles dizem ser uma “vacina” contra o novo coronavírus.

A “vacina” desenvolvida pelo grupo não é do tipo injetável, mas de aplicação via nasal via spray. Outro ponto interessante é que essa “vacina” poderia ser desenvolvida sem a necessidade de uma laboratório especial — claro, não é algo que possa ser feito na cozinha de casa como um xarope de guaco com mel e limão, mas qualquer estudante universitário de química ou de áreas biológicas com acesso ao laboratório da universidade poderia desenvolver a receita sem muitos problemas.

LG e Hospital Albert Einstein firmam parceria para atender pacientes com COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus representado digitalmente na imagem.
Representação digital do vírus SaRS_CoV 2, responsável por causar a COVID-19

Ela utiliza cinco ingredientes principais em sua composição: um epítopo peptídeo (biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos com potencial para gerar resposta imune), quitosana (um produto natural derivado da quitina), tripolifosfato de sódio, cloreto de sódio e água deionizada — todos que podem ser encontrados a venda sem muito esforço.

De acordo com os criadores, esta “vacina” teria o objetivo de fazer com que as mucosas do nariz e do pulmão (os locais de entrada mais comuns do vírus causador da COVID-19) ofereçam uma resposta imune ao novo coronavírus, destruindo ele antes que possa se multiplicar dentro do corpo. Além disso, esta “solução” foi cadastrada sob uma licença Creative Commons, o que permite que qualquer pessoa compartilhe e modifique a receita de qualquer modo e para quaisquer fins sem precisar se preocupar em pagar algo para os criadores da receita.

As dúvidas sobre a vacina da RaDVaC

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O RaDVaC é um grupo de cientistas que se juntaram para descobrir uma cura para o COVID-19 (Imagem: RaDVaC)

Uma vacina fácil de fabricar, fácil de aplicar e que qualquer um pode fazer em casa sem se preocupar com o pagamento de comissões e direitos autorais parece algo muito bom para ser verdade — porque, provavelmente, é.

Ainda que a RaDVaC seja formada por cientistas e engenheiros reais — muitos deles com diplomas e trabalhos de pesquisa em algumas das melhores universidades do mundo — há alguns pontos que precisamos ficar atentos antes de considerarmos esta como uma solução para a pandemia que aflige o mundo todo.

O primeiro deles é quanto à própria eficácia da “vacina”, já que ela foi testada apenas entre os próprios criadores — um grupo de cerca de 20 pessoas. Eles dizem que a “vacina” funciona e que o único efeito colateral sentido foi um certo desconforto no nariz, mas 20 pessoas é um grupo de teste muito pequeno para se tirar conclusões sobre qualquer remédio. Este é mais ou menos o mesmo número de pessoas testadas no famoso “estudo” francês que foi o primeiro a defender a hidroxicloroquina como uma “cura” para a COVID-19, e que posteriormente foi desmentido por outros inúmeros estudos, que indicaram que fazer uso do medicamento pode ser até mais perigoso do que o próprio vírus em alguns casos.

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A hidroxicloroquina é um remédio que surgiu como uma possível “cura” do COVID-19 e que posteriormente foi descartado pelos cientistas (Imagem: AFP)

Outro ponto de desconfiança é o fato desses pesquisadores terem publicado a receita para essa “vacina” sem que o estudo original deles tenha sido revisado por outros cientistas. A chamada “revisão por pares” é uma das fundações de todo o processo científico, e é usado para publicação de artigos científicos e na concessão de verbas de pesquisa porque é uma forma de garantir a qualidade do trabalho e dar segurança de que aquele estudo seguiu todo o rigor exigido de uma pesquisa acadêmica, e que o experimento possa ser replicado com o mesmo resultado por qualquer pessoa que siga exatamente o mesmo processo.

Junte-se isso ao fato dessa “vacina” ter sido disponibilizada ao público antes de mesmo de ser submetida à aprovação de qualquer órgão governamental de segurança (como a FDA, que precisa aprovar a qualidade de todos os remédios que são disponibilizados para comercialização nos Estados Unidos) e toda essa história se torna ainda mais estranha, principalmente porque certamente os cientistas responsáveis pela “vacina” sabem a importância de seguir todos esses passos.

Isso não quer dizer necessariamente que a “vacina” desenvolvida pela RaDVaC é uma farsa completa, mas que, hoje, não há nenhuma garantia de que ela realmente funcione além da própria palavra de seus criadores. Então, até que mais estudos sérios sejam feitos e ela seja testada em um número maior de pessoas, ela na teoria é tão eficaz quanto uma receita de chá anti-COVID que você viu um adolescente sem qualquer formação farmacêutica fazer no YouTube.

Fonte: RaDVaC

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