Nanette: o stand-up que todo mundo deveria ver na Netflix

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Desde que foi lançado no serviço de streaming, o espetáculo de comédia está entre os assuntos mais falados. Se você ainda não assistiu, precisa fazer isso o mais rápido possível

Você, provavelmente, já viu a imagem dessa mulher nas redes sociais. O nome dela é Hannah Gadsby. Australiana, ela tem 40 anos e está bombando nas mídias digitais por causa de seu especial de comédia para a Netflix, Nanette. Ou, se você está imerso no mundo das séries, consegue reconhecê-la da série australiana Please Like Me, onde ela interpreta a amiga que a mãe do personagem principal conheceu em uma clínica psiquiátrica.

A humorista Hannah Gadsby, autora de Nanette.

O ponto é que, se você não viu Nanette ainda, você precisa ver. O espetáculo escrito pela humorista está rolando pelos teatros desde 2017 e, após ser exibido pela Netflix em um especial feito para o serviço de streaming, está rolando pelas telas do mundo todo.

O show de stand-up está entre as maiores recomendações das últimas semanas. Hannah Gadsby levantou, inclusive, a discussão se o monólogo poderia ser chamado de stand-up. Porque ela apresenta um novo tipo de humor, diferente do qual estamos acostumados dentro do mundo do stand-up, com o pretexto de contar sua história.

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Hannah Gadsby na série Please Like Me

Ela usa a comédia, como abre para contar uma história, que não é uma piada e que não deve ser levada como uma piada. Hannah Gadsby faz um stand-up de um jeito extremamente necessário e que, por isso, precisa ser assistido. Porque o humor também é um jeito de contar uma história que precisa ser contada.

Nanette, inclusive, já recebeu uma série de prêmios por apresentar essa nova maneira. Ganhou, na categoria de melhor comédia no Adelaide Fringe Festival, por melhor performance de comédia no Helpmann Award, melhor comédia no Last Minute Edinburgh Comedy Award e como melhor show no Melbourne International Comedy Festival.

Se isso foi o suficiente para te deixar curioso, corra para o serviço de streaming e coloque o especial para assistir. Pode continuar em minha reflexão sobre o espetáculo ou voltar para o texto assim que terminar o soco no estômago que é Nanette.

O que senti com Nanette

Eu não poderia dar outro título para esse texto. Porque o show de stand-up, acima de tudo, te faz sentir. Mesmo que, teoricamente, as risadas sejam o “mais importante”. O riso acaba conforme o show, mas o que sentimos pode nos marcar e nos trazer a reflexão que é necessária para evoluirmos como seres humanos. Mas vamos do começo.

Por que Nanette? Bem, é por causa de uma mulher interessante que Hannah conheceu chamada Nanette. Para tentar impressionar alguém e conseguir flertar, muita gente apela para a comédia. Fazer alguém rir já é meio caminho andado. Por causa disso, Hannah apostou que conseguiria arrancar uma hora de risadas de Nanette. Mas não deu certo, ela não conseguiu fazer a mulher rir. Por isso, nomeou seu especial de uma hora de stand-up de Nanette.

E é com essa piada autodepreciativa que Hannah Gadsby começa seu show. A piada sobre Nanette é uma abertura não apenas para reflexões sobre sua sexualidade, mas uma série de piadas que fazem graça, acima de tudo, com ela mesma. É isso que chamamos de humor autodepreciativo, algo em que ela baseou sua carreira quando decidiu ser comediante, 10 anos atrás.

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Mas essa introdução é, na verdade, uma crítica ao próprio jeito de fazer humor que ela usou até hoje e pelo qual decidiu deixar sua carreira como comediante. É um modo de reclamar seu espaço, ao mesmo tempo que você se desculpa por estar fazendo-o. Mas por que precisamos pedir desculpas?

Falando com a propriedade de alguém que usa piadas autodepreciativas o tempo todo, posso dizer que essa parte foi a primeira que realmente me socou o estômago pela primeira vez durante o especial, aos 20 minutos de duração. A comediante diz “Eu me coloco para baixo para poder falar, pra pedir permissão pra falar. E eu simplesmente não vou mais fazer isso. Nem comigo, nem com ninguém que se identifica comigo.”

Porque autodepreciação feita por alguém que já existe na margem não é humildade, mas, como Hannah disse, é humilhação. Ainda mais porque afeta, também, qualquer pessoa que pudesse se identificar com ela. Pessoas que, por conta da luta para conseguir um espaço no palco, não possuem muitas figuras em cima do palco para se espelhar.

As reflexões de Hannah

Hannah então coloca sua reflexão não apenas sobre o caminho em que sua carreira estava indo, que é saudável para todo adulto, mas como uma introdução a reflexões que, na verdade, todos deveríamos ter.

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Esse tipo de humor questiona o machismo (dentro da arte também, pois o único jeito para uma mulher entrar em um museu é tirando a roupa e servindo de modelo), misoginia, o patriarcado, e como os escândalos de Hollywood são um reflexo da sociedade. “Esses homens não são a exceção, eles são a regra.” Assim como uma agressão que ela sofreu apenas por ser uma mulher lésbica que não se encaixa no padrão de feminilidade da sociedade.

Ela ainda consegue abordar saúde mental, construção de identidade e as dificuldades de ser quem você é fora do padrão. Por que azul é cor de menino? Os estereótipos de gênero são uma forma de agressão. Hannah usa exemplos de situação por quais passou para falar exatamente sobre como é não se enquadrar num esterótipo feminino e como as pessoas, por causa disso, a viam como um homem.

Ser vista como um homem não seria ruim se viesse, por exemplo, com os benefícios de ser um homem. “Adoro que me confundam com homem, pois, por uns momentos, a vida fica muito mais fácil. Sou o padrão de normal, rei dos humanos. Sou um homem branco hétero”, diz a comediante.

É aí que o espetáculo se expõe abertamente como uma crítica. Ele segue tão naturalmente que, quando você percebe, nós substituímos o riso pela compreensão dos padrões da nossa sociedade. Hannah Gadsby vira o jogo por alguns minutos, expondo o problema que a agrediu a vida toda e que agride milhares de pessoas todos os dias.

Ela aborda outro sentimento autodestrutivo: a vergonha. Que temos por sermos quem somos, que nutrimos por não sermos um homem hétero e branco. E como isso nos destrói, não apenas pelos fatores externos, mas como canalizamos isso dentro de nós e permitimos que nos intoxique todos os dias de nossa vida.

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Do que uma piada precisa

Hannah explica que uma piada precisa de duas coisas para funcionar: uma situação e um desfecho. “É essencialmente uma pergunta com uma resposta surpreendente“, diz ela. Basicamente, sua profissão se resume em como fazer as pessoas tensas para, em seguida, fazê-las rirem.

Pois, como ela explica, a comédia alivia a tensão com um desfecho que nos faz rir. Mas Hannah não nos dá o desfecho. Ela constrói a tensão que existe, que é real, que nos cerca. Perdemos o fôlego com a força do soco que ela nos dá no estômago. Só que, essa concepção de tensão, vem de sua própria imagem. “Eu era a tensão“, explica. “Mas eu não quero mais ser a tensão“.

Porque a verdadeira tensão é ser uma mulher lésbica. Uma mulher fora do padrão. Uma mulher.

Sou incorreta e isso é um crime passível de punição.  E essa tensão é de vocês. Não vou mais ajudar. Vocês tem que aprender como é, porque isso, essa tensão, quem não é normal carrega dentro de si o tempo todo. Porque é perigoso ser diferente.

Hannah Gadsby canaliza esse sentimento e aborda o machismo, o assédio sexual, a dificuldade de ser quem ela é.  Pois é impossível você ser mulher em um mundo que a agride diariamente apenas por ter uma vagina e não ter raiva disso.

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Principalmente se for uma mulher que sofreu agressões, não apenas verbalmente, mas que apanhou e foi estuprada por ser quem ela é. Como aconteceu com Hannah e acontece com milhares de mulheres.

Mas ela ainda reconhece o poder que a raiva tem e como isso é tão destrutivo quanto o que lhe foi imposto a vida toda. Ela muda a perspectiva e aponta um amadurecimento maior, de alguém que aprendeu a controlar a raiva, porque sabe o quanto isso é destrutivo.

A comédia falando sério

Como as piadas autodepreciativas, Hannah Gadsby usa a comédia como um abre, mas para falar de algo muito mais importante: sua história. Pessoas como Hannah precisam contar suas histórias sem que sejam uma piada, porque elas não são uma piada.

E nós precisamos de pessoas como Hannah. Que trazem a reflexão. Que nos fazem questionar nosso mundo e os motivos do sofrimento que muitas pessoas tem que lidar, diariamente, apenas por não serem um homem cis branco hétero.

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Ela é um marco do novo tipo de humor. Que não ofende ninguém. “Aos homens da sala, que se sentiram perseguidos por mim a tarde toda… acertaram. Foi isso mesmo que eu fiz aqui. Mas isso é teatro, rapazes. Dei a vocês uma hora, um gostinho… do que vivi a vida toda. O dano que isso me causou é real e debilitante. Eu nunca vou prosperar“, diz a comediante em certa parte do show.

Para ser parte da mudança desse quadro representado por Hannah, é importante saber as histórias das pessoas que não estão no topo da pirâmide social. Porque você não vivencia a agressão diária que pessoas como Hannah, sentem todos os dias.

Precisamos desse tipo de humor não apenas porque ele vira o jogo por alguns minutos, mas, principalmente, porque ele dá algo para que pessoas como Hannah, pessoas que não possuem outros com quem possam se identificar, possam se espelhar e se sentir menos sozinhas.

E precisamos disso desesperadamente, porque isso, esse especial chamado Nanette, nós ajuda a construir o caminho para a mudança. O caminho para um mundo mais igualitário e que aceite as pessoas como elas são.

Conto isso pois quero que saibam, preciso que saibam o que eu sei.  Se alguém tira suas forças, não destrói sua humanidade.  Sua resiliência é sua humanidade. As únicas pessoas que perdem a humanidade são as que acham que têm o direito de tirar as forças de outro ser humano. Eles são os fracos. Envergar e não quebrar, isso é uma força incrível.  Destruindo a mulher, destrói-se o passado que ela representa. Não vou permitir que a minha história seja destruída. Teria feito de tudo para ouvir uma história como a minha. Não por culpa. Nem por reputação, dinheiro ou poder. Mas para me sentir menos sozinha. Me sentir conectada. Quero que minha história seja ouvida. Porque, ironicamente, acho que Picasso estava certo. Acho que podemos pintar um mundo melhor se aprendermos a vê-lo de todas as perspectivas, de quantas perspectivas forem possíveis. Porque diversidade é força. A diferença é uma professora. Tenha medo da diferença e não vai aprender nada.

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