74% da população brasileira associa moralidade à crença em deus, segundo pesquisa

74% da população brasileira associa moralidade à crença em Deus, segundo pesquisa

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Pesquisa do Pew Research Center mostra que apenas 26% dos brasileiros não dizem que acreditar em Deus é necessário para ser moral e ter bons valores.

A relação entre religião e valores morais continua sendo tema de debate em diferentes sociedades. Uma pesquisa global realizada pelo Pew Research Center em 25 países analisou justamente essa percepção: até que ponto a crença em Deus é vista como algo necessário para orientar comportamentos éticos e a formação de bons valores. Os resultados mostram que essa visão varia bastante ao redor do mundo, refletindo diferenças culturais, históricas e religiosas que influenciam a maneira como cada sociedade entende a origem da moralidade.

O que dizem os dados sobre o Brasil

74% da população brasileira associa moralidade à crença em deus, segundo pesquisa
Pesquisa mostra que a maioria dos brasileiros ainda associa a crença em Deus à formação de valores morais. (Foto: Reprodução/Pew Research Center).

Os dados do Pew Research Center mostram que o Brasil permanece entre os países onde a relação entre religião e moralidade é mais forte. Em 2025, 74% dos brasileiros afirmaram que acreditar em Deus é necessário para ser moral e ter bons valores. Esse percentual coloca o país ao lado de outras sociedades com alto nível de religiosidade, como Índia, Indonésia, Quênia e Nigéria, onde a maioria da população também associa diretamente a fé à formação de valores éticos.

Apesar desse patamar elevado, a pesquisa revela uma queda relevante ao longo dos anos. Quando o tema foi medido anteriormente no Brasil, os números eram ainda mais altos: 86% dos entrevistados tinham essa opinião em 2011 e 2013, e 84% em 2019. A redução para 74% em 2025 indica uma diminuição significativa na parcela da população que vê a crença em Deus como condição necessária para a moralidade.

Mesmo com essa queda, o Brasil ainda se mantém muito acima de países da Europa ou da América do Norte. Em nações como Suécia, Espanha, França e Alemanha, por exemplo, apenas uma minoria da população acredita que a fé em Deus seja indispensável para orientar o comportamento moral. Esse contraste evidencia diferenças culturais profundas entre sociedades mais secularizadas e países onde a religião ainda exerce forte influência social.

Outro ponto destacado pela pesquisa é que a associação entre Deus e moralidade tende a ser mais forte em países onde a crença religiosa é mais disseminada. O Brasil se encaixa nesse padrão: a maioria da população afirma acreditar em Deus e considera a religião importante em sua vida. Nesse contexto, a fé continua sendo vista por muitos brasileiros como um dos principais referenciais para definir valores, ética e comportamento na sociedade.

Tendências de associação entre Deus e moralidade em outros países

74% da população brasileira associa moralidade à crença em deus, segundo pesquisa
Dados internacionais indicam que, em várias regiões do mundo, cresce a percepção de que a moralidade pode existir independentemente da religião. (Foto: Reprodução/Pew Research Center).

Os dados da pesquisa também indicam que, em muitas partes do mundo, a associação entre crença em Deus e moralidade vem diminuindo ao longo das últimas duas décadas. Esse movimento aparece com mais força em países da Europa, da América do Norte e da Oceania, onde uma parcela crescente da população afirma que valores morais podem existir independentemente da religião. A tendência reflete mudanças culturais, maior secularização e transformações no papel social das instituições religiosas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, essa mudança é bastante clara ao longo do tempo. Em 2002, 58% dos americanos afirmavam que acreditar em Deus era necessário para ser moral. Em 2025, esse percentual caiu para 31%. O país passou, portanto, de uma sociedade relativamente dividida sobre o tema para um cenário em que a maioria considera que a moralidade não depende necessariamente da fé religiosa.

Tendências semelhantes aparecem em diversos países europeus. Na Alemanha, a parcela de pessoas que associam crença em Deus à moralidade caiu de 37% em 2022 para 21% em 2025. Na Polônia, a queda foi ainda mais acentuada ao longo do tempo: de 38% em 2002 para apenas 16% em 2025. Espanha e Holanda também apresentam percentuais relativamente baixos, reforçando a tendência de menor dependência da religião como referência moral nessas sociedades.

Em países tradicionalmente mais secularizados, os níveis são ainda menores. A Suécia, por exemplo, registra um dos índices mais baixos da pesquisa: apenas 10% da população acredita que é necessário crer em Deus para ser moral. A Austrália segue uma trajetória semelhante, com queda progressiva de 23% em 2013 para 11% em 2025. Esses números ilustram como a ética, nessas sociedades, tende a ser vista como resultado de princípios sociais, culturais ou humanistas, e não necessariamente religiosos.

Por outro lado, algumas regiões do mundo mantêm níveis muito elevados de associação entre fé e moralidade. Países como Indonésia, Quênia e Índia apresentam índices superiores a 85%, chegando a 99% no caso da Indonésia. Esses resultados mostram que, embora a tendência global aponte para maior separação entre religião e moralidade em algumas regiões, em outras partes do mundo a crença em Deus continua sendo amplamente percebida como um fundamento central para os valores morais.

A relação entre religiosidade e valores na sociedade

74% da população brasileira associa moralidade à crença em deus, segundo pesquisa
Estudos apontam que o grau de religiosidade influencia como diferentes sociedades relacionam fé, ética e comportamento moral. (Foto: Reprodução/Canção Nova).

A relação entre religiosidade e valores morais é tema recorrente em estudos de sociologia, psicologia e filosofia. Diversas pesquisas indicam que pessoas que consideram a religião importante em suas vidas tendem a associar com mais frequência a moralidade à crença em Deus. A própria pesquisa do Pew Research Center mostra essa correlação: em vários países, indivíduos que afirmam que a religião é “muito importante” para eles são significativamente mais propensos a dizer que acreditar em Deus é necessário para ter bons valores. Esse padrão aparece tanto em países altamente religiosos quanto em sociedades mais secularizadas.

Do ponto de vista sociológico, uma das explicações clássicas vem das ideias de Émile Durkheim, que via a religião como um sistema capaz de fortalecer a coesão social. Para o sociólogo francês, crenças religiosas ajudam a criar normas compartilhadas que orientam comportamentos dentro de uma comunidade. Nesse sentido, a religião não seria apenas uma questão de fé individual, mas também um mecanismo cultural que ajuda sociedades a definir o que é certo, errado, aceitável ou condenável.

Na psicologia moral, diferentes teorias também analisam como as pessoas constroem seus valores. Um exemplo é o modelo de desenvolvimento moral proposto por Lawrence Kohlberg, que sugere que a moralidade evolui ao longo da vida em diferentes estágios. Segundo essa teoria, indivíduos podem desenvolver princípios éticos baseados em regras sociais, leis ou valores universais, independentemente de crenças religiosas. Isso ajuda a explicar por que, em muitas sociedades contemporâneas, cresce a percepção de que a moralidade pode existir fora do contexto religioso.

Outra abordagem importante vem da psicologia social e da chamada teoria dos fundamentos morais, desenvolvida pelo pesquisador Jonathan Haidt. Esse modelo propõe que os valores morais humanos são construídos a partir de diferentes pilares, como cuidado, justiça, lealdade, autoridade e pureza. Em muitas culturas, a religião reforça especialmente os fundamentos ligados à autoridade e à pureza, o que pode fortalecer a associação entre fé e moralidade em comunidades mais religiosas.

No conjunto, estudos acadêmicos e pesquisas internacionais sugerem que a relação entre religião e moralidade não é universal nem fixa. Em sociedades com forte tradição religiosa, a fé tende a ser vista como uma base importante para valores e comportamentos éticos. Já em contextos mais secularizados, princípios morais podem ser fundamentados em normas sociais, direitos humanos, empatia ou responsabilidade coletiva. Essa diversidade de visões ajuda a explicar por que diferentes países apresentam percepções tão distintas sobre o papel da crença em Deus na construção da moralidade.

O que você pensa sobre essa correlação entre moralidade e crença em Deus? Conta pra gente nos comentários abaixo.

Veja também:

Fonte: Pew Research Center.

Revisado por Luís Antônio Costa em 10/03/26


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