Review: Gris é uma obra de arte em forma de game

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Gris é a maior prova de que um videogame pode ser uma obra de arte

O nosso primeiro post de 2019 começa com a busca por uma definição bem complexa. O que é arte?  Uma das descrições que o Aurélio nos dá é “atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito característicos, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação”.

Mas será que um videogame seria capaz de chegar perto desse conceito? GRIS é a maior prova de que a resposta a esse questionamento é sim.

A Devolver cedeu ao Showmetech uma cópia digital para PC (Steam) do jogo para testes e, após algumas semanas apreciando a beleza dessa experiência emocional, nós trazemos a vocês uma análise completa desse game deslumbrantemente simples.

Pintando os sentimentos

GRIS significa “cinza” em francês. E a escolha desse nome para o game fica bem claro logo nos primeiros momentos da experiência. O jogador é colocado na pele de uma jovem sem nome que subitamente perde sua voz, ao mesmo tempo que seu mundo desmorona e perde as cores.

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A partir daí, cabe ao jogador guiar a nossa intrépida protagonista por um mundo surreal para recuperar o que foi perdido. A jogabilidade é simples combinando elementos de plataforma com puzzles. Conforme você explora o mundo é preciso coletar estrelas para liberar novas habilidades e completar constelações para restaurar as cores.

Através das estrelas que você reúne ao resolver puzzles, não somente você é capaz de acessar novas habilidades que lhe permitem ir em lugares antes inacessíveis mas também pode criar pontes e ativar mecanismos que aproximam cada vez mais a jovem de seu objetivo final: trazer de volta a harmonia ao seu mundo.

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Tudo isso é feito da forma mais natural possível. Não existem diálogos, tutoriais e nem perigo de morte. Gris é uma experiência emocional e artística em que você controla uma personagem por uma pintura viva. O jogo dá algumas informações quando você conquista uma habilidade nova ou mesmo move a câmera para a direção que você precisa ir.

No entanto, dada as dimensões do mundo de Gris é incrível como não existe perigo de o jogador se perder nele. O jogo não é uma experiência linear, porém a câmera cria ângulos sutis em dadas situações que acabam instruindo o jogador sobre qual direção ele deve tomar ou qual objeto deve investigar. É uma forma fantástica de guiar o jogador, mesmo que inconscientemente.

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Cada parte desse mundo em ruínas que tem suas cores restauradas representam uma catárse de sentimentos (tanto para a personagem quanto para o jogador). As novas cores pingam sobre a tela de pintura que o game se transforma, como se as emoções perdidas nesse mundo vazio fossem encontradas e trazidas à tona subitamente.

Nesse instante, GRIS deixa de ser apenas um jogo, mas uma experiência emocional que acompanha os passos de uma jovem que tenta buscar uma luz no fim do túnel. De certa forma, podemos relacionar o contexto criado pelo game com doenças como depressão e transtorno de ansiedade.

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É uma abordagem tratada de forma muito sutil, quase como se o game quisesse que o jogador se desse conta sozinho desse fato. Aos poucos a personagem percebe que não está sozinha, que se explorar e não desistir de buscar uma resposta, tudo pode ser resolvido, desde trazer um mundo de volta à vida como recuperar sua bela voz e poder exprimir seus sentimentos.

Essa preocupação em abordar esse tema tão estigmatizado pela sociedade fica mais evidente quando se analisa a forma como o game explora os inimigos. Existem poucos momentos em que você enfrentará vilões no game, porém você não pode morrer.

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Ao invés disso, eles se materializam como uma presença onipotente que oprime a personagem e impede seu progresso, seja na forma de um pássaro gigante ou uma lampreia assustadora. É como se nossos medos tomassem forma e a única forma de superá-los fosse seguir em frente, por mais terríveis que possam ser.

Emoção e arte em GRIS

O primeiro game da Monada Studios segue com maestria o estilo de jogo criado pela ThatGameCompany, outra desenvolvedora de games indies responsável por grandes sucessos como Flower e Journey. Em ambos os títulos, uma experiência emocional é criada através da mecânica de jogabilidade simples, trilha sonora envolvente e um visual de tirar o fôlego.

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O grande foco de Gris é em seu estilo visual, que é sem sombras de dúvida, a estética mais bonita que já pude ver em um game. A arte mistura um estilo de animação com pinceladas de aquarela. É surpreendente que a equipe artística tenha conseguido criar esse efeito realista apenas com ferramentas de computador e não com trabalho manual.

Cada passo dado é como se o jogador estivesse andando dentro de uma pintura, ou assistindo a um desenho que ele controla o enredo. A ausência de sons além da maravilhosa trilha sonora não prejudicam em nada a experiência do usuário. Pelo contrário, essa característica potencializa a gama de emoções que o game consegue transmitir.

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Para alguns jogadores a simplicidade excessiva de alguns puzzles pode incomodar um pouco, mas é importante perceber que esses elementos não são a peça-chave do game, eles estão presentes apenas como uma ferramenta de auxílio para envolver o jogador na experiência. Caso contrário, poderia-se dizer que o jogador seria apenas um espectador qualquer.

Além disso, GRIS é um jogo curto. Por um lado isso é bom, mas por outro parece muito limitador. A vantagem é que se cria uma experiência compacta, que transmite um intimismo necessário quando se está tratando de um tema delicado e tão subjetivo no game quanto a depressão.

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O ruim dessa abordagem é que muitos elementos ficam subutilizados, como as últimas habilidades que a jovem adquire no final da aventura e o jogador vê poucas oportunidades de utilizá-las. Sem mencionar que o mundo de nossa personagem parece ser tão interessante e esconder tantas histórias que certamente não iríamos nos importar de conhecer um pouco mais dele.

Cores além do cinza

GRIS é uma experiência digital tocante feita com carinho e dedicação por uma equipe de desenvolvedores cientes de que estavam criando uma forma fantástica de contar uma história de superação, mesmo que sem diálogos. 

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Dessa forma, foi possível criar uma obra que ultrapassa o reino dos videogames e que se aproxima de forma direta de uma criação puramente artística. GRIS é muito mais do que um simples jogo, e cabe ao jogador perceber isso a cada passo dado nesse mundo sem cores.

Herdando estilos visuais cunhados pelo belíssimo Child of Light e na jogabilidade de Journey, GRIS toca no tema da depressão de uma forma ainda mais bela, marcante e, ao mesmo tempo sutil, que outro game de sucesso, Celeste também o fez. E o resultado é maravilhoso.

  • 10/10
    Visual - 10/10
  • 8/10
    História - 8/10
  • 9/10
    Jogabilidade - 9/10
  • 10/10
    Som - 10/10
9.25/10
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