Videogames em matérias na escola? Entenda

Videogames como matérias na escola? Entenda

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A inclusão da cultura gamer no aprendizado pode torná-lo mais eficaz para as crianças? Saiba mais sobre esse debate

Você acha possível que em algum momento a sociedade construa um método de educação no qual videogames poderão ajudar crianças a aprender melhor? Essa é uma possibilidade comentada e muito debatida no meio acadêmico.

Afinal, se nem todos concordam, existem muitos benefícios documentados no uso de videogames como fonte de conhecimento e aprendizado, incluindo aqui técnicas de gamificação do ensino. Entenda a seguir:

Deveriam os videogames ser matérias na escola?
Deveriam os videogames ser matérias na escola? (Imagem: DepositPhotos)

Ainda que muitos pais achem que o videogame pode prejudicar o desempenho dos filhos na escola, seja por associarem o console com entretenimento ou com jogos violentos que a mídia vive endossando, o mundo dos games está mostrando sua aptidão para oferecer muito mais recursos e utilidades que de fato agregam e são benéficos para quem joga. Os benefícios de combinar games e educação incluem melhor desenvolvimento da criatividade, memória, idiomas, trabalho em equipe e maior concentração. 

Com isso, o papel dos games na escola pode ser exercido de forma lúdica para ensinar os conteúdos abordados, uma vez que o objetivo do ensino é alcançar a fixação do que foi aprendido. Jogos com narrativas baseadas em fatos são um grande exemplo de que existem formas de absorver conhecimento de forma divertida e mais próxima da rotina e da linguagem de crianças e adolescentes.

Despertando interesses

Apesar da carranca de Kratos, que pode não agradar de primeira a impressão de pais sobre os jogos de God of War, é com a sede de vingança dele que acabamos aprendendo um pouco mais sobre a mitologia grega. Outro jogo na mesma linha é Hades (2020), que envolve todo e qualquer deus grego na jogada. É muito comum que, na adolescência, haja interesse na parte mitológica dos estudos de história. Então podemos dizer que esses exemplos de jogos são um braço imersivo do grande leque cultural desenvolvido sob temas da mitologia. Digamos ser o equivalente à saga de Percy Jackson e outras obras de Rick Riordan.

Na onda de mitologia, seguindo para arquitetura, também temos como exemplo em destaque o Assassin’s Creed. O criador por trás do canal Loomer fez várias visitas – a famosa tour –  pelos lugares que inspiraram os jogos da franquia, que tem como ponto forte a recriação fiel de arquiteturas existentes na realidade. 

Outra personagem que ajudou a espalhar o conhecimento sobre arqueologia com suas grandes aventuras nos games para PlayStation é a icônica Lara Croft em Tomb Raider. Enfim, a lista de jogos e personagens é imensa e, com certeza, terão mais exemplos ao longo dessa matéria. O ponto é que todas essas narrativas, de alguma forma, acabam gerando conhecimento e ensinam para seu público conteúdos relacionados a campos da geografia, matemática, história, filosofia, entre outros. 

Porque seu filho deveria aprender a jogar videogames

Seja você contra ou a favor dos videogames, é inegável o impacto e o espaço que ele conquistou na sociedade, sendo até um objeto de muitas pesquisas. Um estudo publicado na revista Pediatrics em 2014 pelo psicólogo do Oxford Internet Institute – departamento multidisciplinar de ciências sociais e da computação dedicado ao estudo da informação, comunicação e tecnologia -, Andrew Przybylski, debate por quanto tempo seria saudável as crianças dedicarem um tempo aos videogames.

Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Deveriam os videogames serem matérias na escola? (Imagem: DepositPhotos)

Com a pesquisa, Przybylski conclui que pessoas que jogam videogame por menos de uma hora por dia eram mais estáveis emocionalmente, enquanto as que ficavam em frente ao console por cerca de três horas ao dia desenvolviam problemas e dificuldades sociais. Assim como no caso de televisão, celulares e telas no geral, a moderação é o ingrediente chave para se conseguir extrair a parte positiva da experiência sem que o exagero traga consequências na saúde. 

Com a moderação em mente, são inúmeros os benefícios de jogar videogames. Entre eles estão o fato de que o tempo de resposta do cérebro é acelerado, ou seja, jogar videogame ajuda na habilidade de otimizar a solução de problemas. Além disso, os jogos multiplayer incentivam o trabalho em equipe para conseguir chegar ao objetivo. 

Outro ponto interessante é que os videogames estimulam a criatividade, o foco e a memória visual, já que as metas propostas pelos jogos exigem o exercício da imaginação, da concentração e da lembrança de detalhes para resolver os puzzles. Com isso vem a melhora de senso de estratégia e o desenvolvimento do espírito de liderança para resolver disputas, interagir e organizar estratégias com outros jogadores e tomar decisões – quem já jogou Overcooked, por exemplo, sabe que tudo isso acontece na prática.

Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Jogo Overcooked (Reprodução/Epic Games)

Sem contar que juntando games e educação você também instiga a construção de um pensamento crítico de acordo com as narrativas propostas, e também oferece um contato maior com outras línguas, já que os jogos disponibilizam diversas línguas para serem usadas nas instruções que aparecem na tela, em bate-papos com outros jogadores e narração do game em si.

E não para por aí: segundo o artigo do Royal Baloo, site voltado para a educação de crianças, existem mais de 100 motivos plausíveis para o uso de jogos no ensino ou até mesmo, quem sabe, videogames serem matérias – ou pelo menos uma ferramenta para os professores explorarem mais como método de ensino. Confira abaixo:

  • Os videogames promovem a exploração de tecnologia;
  • Pode fazer com que leitores relutantes se tornem leitores vorazes;
  • Ajuda as crianças a desenvolver a paciência por meio da repetição;
  • Desenvolve habilidades de resolução de problemas;
  • Muitos videogames ensinam habilidades importantes para a vida;
  • Os videogames educativos são importantes para o aprendizado individualizado;
  • Desenvolve a coordenação mão/olho;
  • Usar o Wii Fit da Nintendo para educação física escolar pode ser uma alternativa interessante;
  • As crianças podem aprender programação, codificação e design CAD usando o jogo de videogame;
  • Jogos como Minecraft ensinam às crianças habilidades básicas de sobrevivência;
  • O jogo experiencial ensina habilidades no início de um jogo que se baseia em outras habilidades à medida que avançam. Este jogo experiencial é importante para ensinar habilidades de tomada de decisão, por exemplo;
  • As crianças podem aprender a ser persistentes se quiserem completar qualquer desafio de videogame, pois geralmente precisam repetir o desafio muitas vezes antes de desenvolver o conhecimento de como ter sucesso e passar para a próxima fase;
  • Crianças artisticamente criativas podem aprender técnicas de arte enquanto jogam videogames. Isso porque o design de jogos está cheio de imagens animadas digitalmente – alô, Fall Guys!;
Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Jogo Fall Guys (Imagem: Reprodução/Nintendo)
  • As crianças aprendem o raciocínio espacial por meio de jogos porque precisam manobrar em mundos dimensionais;
  • Os jogos ensinam as crianças a criar estratégias para completar tarefas de maneira lógica;
  • Eles podem aprender habilidades de cartografia já que muitos jogos usam sub-mapas para permitir que os jogadores vejam onde eles estão em relação a outras áreas do mundo digital;
  • Jogar videogames ajuda a desenvolver o domínio educacional ao aprender como assimilar uma habilidade obtida e aplicá-la a outros desafios mais tarde no jogo;
  • As crianças aprendem técnicas de resolução de puzzles (quebra-cabeças, desafios);
  • Desenvolve habilidades de raciocínio e lógica;
  • Eles permitem que as crianças explorem mais da música com jogos como Guitar Hero e Rock Band;
  • Inspira o aprendizado histórico por meio de jogos ambientados em épocas históricas, como  o Kingdom Come que é ambientado em tempos medievais e baseado em eventos históricos;
  • As crianças conseguem desenvolver a habilidade de escrita criativa por meio de jogos de histórias de fantasia;
  • Como muitos jogadores jogam online ou em suas próprias casas com os amigos, os videogames são uma excelente maneira de as crianças desenvolverem habilidades sociais – Animal Crossing e Stardew Valley são exemplos;
Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Jogo Stardew Valley (Imagem: Reprodução/Steam)
  • Ajuda a desenvolver habilidades motoras no uso de joysticks e controles de teclado;
  • Ajuda a desenvolver habilidades de digitação;
  • O jogo instiga o pensamento criativo;
  • Os videogames aliviam o estresse;
  • O jogo pode acalmar uma criança emocionalmente intensa;
  • Pode fornecer uma fuga para pessoas introvertidas que precisam se afastar por um tempo para recarregar suas baterias;
  • Oferece uma ampla gama de aprendizado individualizado;
  • Ajuda a melhorar a memória;
  • Os videogames de aventura fortalecem as habilidades de compreensão de leitura;
  • Ajuda a treinar os olhos na percepção de profundidade;
  • Ajuda a desenvolver o julgamento ético e moral, pois os jogadores precisam tomar essas decisões para progredir nos jogos;
  • Os jogos estão se tornando cada vez mais disponíveis por meio de aplicativos que ensinam assuntos e habilidades específicas;
  • Os jogos também ensinam aos alunos que o fracasso é inevitável e, posteriormente, eles podem desenvolver habilidades de enfrentamento para quando as coisas não acontecem do jeito que querem;
  • Os videogames simulam situações da vida real, estabelecendo as bases para as habilidades necessárias mais tarde na vida;
  • Os jogos de simulação são jogados em tempo real e os jogadores devem tomar decisões que afetam a vida de seus personagens;
  • As experiências dos videogames na escola podem ajudar os alunos com necessidades especiais a desenvolver caminhos neurais e experimentar o mundo de maneira virtual;
  • Os jogos podem oferecer às crianças introvertidas uma maneira de interagir com outras pessoas através de mundos multiplayer online sem o estresse que os mais tímidos podem sentir quando cercados fisicamente por outras pessoas;
  • Melhora as habilidades matemáticas;
  • Desenvolve a compreensão de programação e conduz a estudos tecnológicos posteriores;
  • Desperta interesse nos campos de estudo STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, em tradução livre);
  • Pode inspirar a próxima geração de arquitetos;
  • Os desenvolvedores de jogos agora estão fazendo jogos projetados especificamente como jogos de aprendizagem, contribuindo para a gamificação do ensino;
  • No mundo tecnológico em constante mudança, as carreiras estão sendo baseadas no espaço virtual. As crianças precisam ter contato com  computadores e tecnologia desde tenra idade ou ficarão para trás em relação a seus pares e não estarão preparadas para o mercado de carreira do futuro;
  • Os videogames de hoje ensinam programação básica às crianças;
  • Muitas carreiras usam alguns elementos de matemática avançada, programação ou colaboração online, desenvolver essas habilidades úteis na infância irá prepará-los para o futuro;
  • Os videogames também podem ajudar as crianças a aprender a pensar e tomar decisões rapidamente, habilidades necessárias no mundo acelerado atual;
  • As crianças desenvolvem confiança através do jogo porque conseguem resolver e vencer por tentativa e erro;
  • O cérebro se desenvolve ao ser desafiado por experiências e os videogames são ideais para promover motivação, definir metas claras, interpretar resultados e buscar feedback;
  • As crianças podem aprender habilidades de colaboração em jogos que exigem que dois ou mais jogadores trabalhem juntos de maneira compatível;
  • Estudos mostram que jogar videogame melhora a clareza mental;
  • Especialistas estão dizendo que a codificação é a 4ª habilidade essencial; sendo os quatro: leitura, escrita, matemática e codificação. Os jogos, portanto, ensinam os fundamentos da codificação;
  • Os videogames podem levar a carreiras produtivas e gratificantes;
  • Os jogadores profissionais jogam em campeonatos e conseguem adquirir grandes rendimentos;
  • Os jogos podem levar a uma carreira em design digital;
  • A animação digital é uma escolha de carreira lucrativa, tanto na indústria de jogos quanto na de entretenimento;
  • A cartografia é uma das carreiras mais antigas e, no entanto, ainda prevalece hoje atuando em mapas digitais mais modernos, tanto no mundo de jogos quanto em muitos outros campos;
  • O contato de jogos pode desencadear interesse na área de desenvolvimento de APP para celulares, tablets, etc.;
  • O design CAD é uma carreira de liderança nas áreas de tecnologia;
  • Pode servir como construtor de habilidades para aqueles que estão interessados em servir o país nas carreiras militares;
  • My Word Coach, um jogo para Nintendo Wii, ajuda os usuários a melhorar suas habilidades de comunicação verbal;
  • uDraw GameTablet com uDraw Studio para WiiU ajuda os jogadores a desenvolver suas habilidades artísticas;
  • O Reader Rabbit tem uma variedade de jogos projetados especificamente para a fase pré-escolar;
  • Jogos como Myst ajudam os alunos a desenvolver a imaginação, o senso de curiosidade para investigação, a resolução de puzzles e a proficiência em descobertas;
  • Jogos como What’s Cooking with Jamie Oliver e America’s Test Kitchen ensinam às crianças técnicas básicas e criativas de culinária;
  • Jogar Math Blaster torna o aprendizado de fatos básicos de matemática super divertido;
  • Os alunos aprendem melhor fazendo, então os videogames conseguem oferecer essa experiência de imersão e simulação;
  • Os videogames educativos ajudam os alunos no desenvolvimento de habilidades cognitivas;
  • Alguns jogadores se inspiram a criar seus próprios mundos de videogame, fato que pode servir de impulso para o desenvolvimento da escrita criativa;
  • À medida que os jogadores desenvolvem suas habilidades de jogo, aprendendo a utilizar seus controladores, eles desenvolvem habilidades com os dedos que podem servir como bases para aprender necessidades de jogo de mão mais complexas, como tocar um instrumento musical;
  • Alguns videogames que são jogados em tempo real ensinam técnicas de gerenciamento de tempo;
  • Os videogames incentivam a compreensão da leitura técnica, uma vez que funcionam com manuais de instruções;
  • Os videogames podem despertar o desejo de participar de competições e aumentar o nível de confiança de um jogador;
  • Os jogadores são encorajados a formar e trabalhar com objetivos, não importa o quão difícil seja a jornada;
  • Sua capacidade de calcular, seja matemática simples ou estratégias, pode melhorar com a experiência em videogames;
  • O xadrez, um ótimo jogo para ativar os dois lados do seu cérebro, está disponível tanto em forma de software quanto online;
  • Jogos militares podem ensinar conceitos de estratégia de guerra;
  • Os jogos online podem ensinar uma criança ou adolescente a ter discernimento sobre as pessoas com quem interage;
  • Os videogames podem ensinar habilidades financeiras por meio de jogos que trabalham com gerenciamento;
  • Jogos multijogador podem aumentar o tempo da família;
  • Através do Minecraft as crianças podem aprender sobre criação e nutrição;
  • Os videogames esportivos, como o Madden NFL, podem ensinar as regras do jogo às crianças.

A importância dos videogames na escola e sociedade

Já faz um tempo que a indústria de games deixou de exercer apenas o papel de entretenimento. O setor conquistou muitos territórios, principalmente o da tecnologia e inovação, que permite cada vez mais narrativas imersivas. Se antes tínhamos jogos objetivos como o Atari, hoje temos uma gama de arcos densos que muitas vezes se mesclam com roteiros semelhantes ao do cinema. 

Segundo a empresa de inteligência de mercado Newzoo, a indústria de videogames conta com a média de 2,5 bilhões de jogadores no mundo, sendo o destaque principal da vez o Fortnite, com 139 milhões de jogadores ativos. 

Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Jogo Fortnite é um dos mais acessados atualmente (Imagem: DepositPhotos)

Então, se o propósito é preparar as crianças para o futuro, naturalmente é preciso inserir a tecnologia na jogada. Com isso, não há razão para evitar a junção de games e educação – desde que seja feita com prudência, conforme discutido nessa matéria.

A incorporação da gamificação no ambiente de trabalho, se bem implementada, faz com que a execução das demandas seja mais intuitiva e auxilia em uma compreensão mais clara. Ao seguir essa lógica, os videogames na escola, por sua vez, têm o potencial de ajudar as instituições de ensino a reexaminar suas suposições e crenças sobre trabalho, lazer e métodos educativos.

Ainda nesse comparativo entre trabalho e ambiente escolar: ao adotar a gamificação, algumas empresas notaram que a ferramenta fez com que funcionários passassem a descobrir paixões e conectá-las a missões e valores, junto dos colegas de trabalho. Se o videogame conseguiu esse feito com adultos, os games na escola – ambiente o qual as pessoas ainda estão em fase de crescimento e formação – podem agregar muito mais.

A inserção de jogos é um método natural para permitir que os alunos falhem em um ambiente seguro e que consigam aprender com tais falhas de modo que possam tentar novamente até chegarem ao sucesso.

Inclusive, games como Burnout Paradise tornam o fracasso divertido. Neste jogo em específico, o objetivo é justamente bater os carros, pois quanto mais diferente for o acidente, maior será o seu score. De certa forma, isso permite que os jogadores aprendam essencialmente com seus erros, corrijam-nos e tentem novamente.

Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Jogo Burnout Paradise (Imagem: Reprodução/Nintendo)

O falecido teórico e autor Jesper Juul escreveu em seu livro, “The Art of Failure – um ensaio sobre a dor de jogar videogame”, que perder em videogames é parte do que torna os jogos tão envolventes. Falhar em um jogo faz o jogador se sentir inadequado, mas a graça é que ele pode se redimir imediatamente e melhorar suas habilidades.

Aprendizagem por gamificação

Assim como discutido até então, os benefícios dos videogames atualmente também podem ser aplicados no campo da educação por meio da aprendizagem baseada em jogos. Ao utilizar games na escola, tal método de ensino consegue desenvolver três aspectos ótimos para alcançar o objetivo de absorção de conhecimento por parte dos alunos:

  • Videogames na escola renovam a educação. Transformam o aprendizado em um jogo divertido e emocionante, sem que as aulas fiquem maçantes. Dessa forma, os alunos assimilam e retêm informações quase sem perceber;
  • Aumenta a motivação. Os alunos são os personagens principais da história e seu sucesso é recompensado com medalhas, vidas extras, bônus, etc. Isso captura e mantém o interesse em aprender cada vez mais.
  • Os games na escola dão oportunidades para a prática. Os alunos podem aplicar os conhecimentos adquiridos sem entrar em situações perigosas. É disso que tratam os simuladores de voo e navegação, por exemplo.

Cada vez mais, pesquisas universitárias e industriais confirmam que os videogames apoiam e promovem naturalmente esse tipo de aprendizado. Ainda que a fonte principal dos videogames seja o entretenimento, sendo a média de US$ 120 bilhões em torno desse setor, a exploração de seus recursos em novos territórios tornou tudo mais interessante.

Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Deveriam os videogames serem matérias na escola? (Imagem: DepositPhotos)

Os militares usam para exercícios de treinamento, empresas utilizam aplicativos gamificados para realizar entrevistas, e, nas salas de aula, a expectativa é de que se utilize muito mais como uma ferramenta de ensino para além daquelas aulas de informática limitada que a geração millenium teve nos anos 2000. 

Os games na escola não são um fenômeno inteiramente novo, digamos assim. Além dessas aulas de informática, muito antes, pessoas que estudaram entre os anos 1970 e 1990 no exterior tiveram contato com o game The Oregon Trail, que estreou em uma sala de aula em 1971.

Neste jogo, os alunos lideram um grupo de colonos pelo Centro-Oeste seguindo os passos de Lewis e Clark. O game surgiu pouco antes de a indústria de videogames ser estabelecida com o lançamento em 1972 do videogame Pong, uma versão eletrônica do tênis de mesa.

Mesmo que os videogames educativos sejam usados nas salas de aula há 50 anos, e apesar de pesquisas mostrarem que videogames serem matérias podem ser eficazes, eles não são tão comuns nas salas de aula atualmente – fato que é irônico, já que estamos cada vez mais interligados a tecnologia.

Isso porque há certa resistência cultural. Não importa se existem estudos e evidências sobre os benefícios de videogames serem matérias em âmbito de ensino. Existem muitas barreiras sociais em aderir novas tecnologias em ambiente escolar. A associação dos videogames ao entretenimento e a um artigo de passatempo ainda é muito forte. Videogame não deveria ser visto como antônimo de conhecimento – games e educação deveriam trabalhar juntos.

O tempo médio que um aluno gasta aprendendo de fato um conteúdo em sala de aula e tendo um rendimento é de apenas 60% do tempo total de aula. Uma maneira mais eficaz de maximizar o tempo de aprendizado é por meio do tempo dedicado à tarefa. Logicamente, quando os alunos estão interessados e se preocupam com o tópico abordado, eles são curiosos e engajados. 

Só que quando o assunto é lição de casa, é preciso desenvolver outros métodos para motivar os alunos. É aqui também que poderia entrar o videogame. Os jogos educativos podem ser projetados para melhorar a motivação e o engajamento, proporcionando aos alunos mais tempo engajado na tarefa.

Incentivo à exploração e criatividade

Alguns de nós, se não a maioria, acreditamos que o modo que nos apresentamos e as escolhas que fazemos para montarmos nossa identidade digital está se tornando cada vez mais importante. Seja pelo Twitter, Facebook ou LinkedIn, todos os erros e acertos são públicos. As redes sociais podem ser brutais quando se trata de condenar alguém ou deixar em esquecimento – o famoso flop. 

Em termos mais bonitos, um dos conceitos-chave nos estudos de mídia é o papel da representação – sendo válido também para o universo dos jogos. Como as pessoas se representam online é uma preocupação popular dos professores que defendem a “cidadania digital” e a “identidade digital”. Isso é uma razão convincente para que as escolas investiguem os jogos, pois eles podem desempenhar um papel importante na representação de pessoas, eventos e ideias – e representá-los na literatura cultural de hoje.

Ok, mas onde que jogar videogames entra nisso? Bem, é simples. Os jogos são pioneiros em fornecer a experiência de criar novas e diversas representações de si mesmo sem que isso seja algo imutável. Por exemplo, em um jogo como o The Sims, uma criança pode escolher a personalidade que quiser, criar carreiras, explorar hobbies, salvar, recriar, moldar. A janela de exploração é bem ampla para que ela se encontre nessa fase de crescimento.

Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Jogo The Sims (Imagem: Reprodução/Xbox)

O jogo envolve experimentações na formação de identidade, mas em um ambiente mais seguro do que outras ferramentas online. As crianças consomem muitos tipos de jogos, tanto como jogador quanto como público. O que é menos falado é como os jogadores aprendem enquanto são o público – parar para ver gameplays, por exemplo. Como público, os jogadores assumem um papel ativo na decodificação das representações feitas por todas as formas de mídia através de suas próprias culturas e situações de vida.

Experiências imersivas de aprendizado 

As teorias do campo educacional afirmam que, na verdade, os alunos não podem receber conhecimento; nesse caso, a partir das informações recebidas, eles constroem o conhecimento em suas próprias mentes. É preciso unir conceitos previamente aprendidos para construir a assimilação de conteúdo em um nível mais alto e mais complexo para torná-lo seu.

Um exemplo clássico e prático de experiência imersiva que pode conter diversos aprendizados com bagagem prévia: Pokémon.  Quer um mais atual? Pokemon Go. Certamente não foram desenvolvidos como games educacionais, mas seus princípios poderiam ser facilmente usados para projetar videogames para salas de aula que aprimoram sua experiência educacional.

Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Jogo Pokémon Go (Imagem: DepositPhotos)

Em química, a tabela periódica de elementos pode ser o maior pesadelo para muitos alunos. Mas se você tentar assimilar o conteúdo com algo prazeroso, o ângulo muda. Ainda no exemplo do Pokémon:  a essência do jogo é descobrir como combinar os 17 tipos diferentes de ataque ao lutar contra outros Pokémon. Cada Pokémon tem um ou dois tipos de ataques que eles podem usar. 

Os jogadores não aprendem as diferentes combinações possíveis estudando uma grande mesa com 27.624 entradas, mas sim jogando o jogo. Ao jogar o game, os alunos constroem gradualmente um conhecimento mais profundo e consequentemente desenvolvem habilidades essenciais.

Portanto os videogames serem matérias que representam uma experiência de aprendizagem positiva é o que o futuro deve prospectar. Um professor com um método eficaz de ensino conseguirá construir o aprendizado por meio de recursos que vão inspirar e motivar as crianças a serem melhores. Os games na escola são parte dessas ferramentas.

Jogos que ensinam 

No campo da aprendizagem baseada em jogos existem videogames educacionais conhecidos como “jogos sérios”. Esse segmento específico de aprendizado busca ensinar aos alunos disciplinas específicas ou formar profissionais como pilotos, bombeiros, policiais,profissionais de saúde, entre outros. Os videogames educacionais são um mercado em expansão e devem valer US$ 17 bilhões até 2023 – 485% a mais do que em 2018 – de acordo com previsões publicadas pelo portal Statista. 

Muitos jogos educativos foram lançados desde os dias de The Oregon Trail – comentado lá em cima. Alguns dos mais populares são o Dragon Box (dedicado a introduzir geometria para crianças pequenas); Extreme Event (prepara os jogadores para lidar com desastres naturais e encoraja trabalho em equipe); Pacific (ensina como ser um líder e como gerenciar uma equipe); Spore (muito útil para ensinar biologia, principalmente a evolução dos seres vivos); o famoso Duolingo (focado no aprendizado de novas línguas de forma leve e interativa); Blood Typing, (desenvolvido pela Swedish Academy, ensina sobre tipos sanguíneo e transfusões); e, por fim, Minecraft, um ótimo jogo para explorar vários campos de aprendizado.

Deveriam os videogames serem matérias na escola?
Jogo Minecraft (Imagem: Reprodução/Nintendo)

Usar videogames na escola ou adotar a aprendizagem com base em jogos é uma forma de democratizar o ensino de modo que as crianças e os professores consigam representar a si mesmos e o entorno sem que essa realidade pareça algo inalcançável. No final das contas, o que de fato importa é trazer os conteúdos teóricos para a vida dos alunos de forma que eles consigam relacionar com elementos do cotidiano e com projeções futuras de onde querem chegar, seja na vida pessoal ou na carreira profissional.

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Fontes: Iberdrola, Modern Learners e Penn Today

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