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A agência reguladora dos Estados Unidos autorizou a Aletta, primeiro dispositivo robótico independente capaz de realizar uma coleta de sangue do braço sem intervenção manual do operador. O equipamento da holandesa Vitestro localiza a veia, insere e descarta a agulha, troca os tubos e coloca o curativo, mas continua sob supervisão de um profissional treinado. Entenda como funciona e o que muda após a decisão da FDA. Veja a seguir:
Como a Aletta coleta sangue sozinha
A Aletta é um dispositivo robótico autônomo de flebotomia — nome técnico do processo de retirada de sangue. O paciente posiciona o braço no equipamento e inicia a sessão pelo botão indicado, enquanto um profissional treinado permanece disponível para intervir. A máquina usa luz infravermelha próxima, ultrassom em tempo real e ultrassom Doppler para localizar um vaso adequado e confirmar que se trata de uma veia, e não de uma artéria.
Com o ponto de punção definido, algoritmos de inteligência artificial (IA) orientam o sistema robótico a posicionar a agulha com precisão submilimétrica. A Aletta então aplica o torniquete, desinfeta a pele, faz a punção, preenche e mistura os tubos na ordem programada, recolhe e descarta a agulha e aplica o curativo. Se não encontrar uma veia apropriada, o procedimento nem é iniciado.
A segurança inclui uma agulha estéril nova a cada coleta, sensores que interrompem o processo diante de uma condição insegura e um mecanismo que desprende automaticamente a agulha se o paciente mover demais o braço. O equipamento também passa por limpeza entre atendimentos. É uma aplicação mais autônoma do que a maioria dos robôs que já atuam na medicina, mas não funciona sem acompanhamento humano.
Testes indicam 94,5% de sucesso na primeira tentativa
O principal estudo clínico publicado sobre a tecnologia integra o ensaio multicêntrico ADOPT e foi conduzido em departamentos ambulatoriais de coleta de sangue nos Países Baixos. Na coorte de uso rotineiro, com 1.633 participantes, a versão investigacional do robô obteve 94,5% de sucesso na primeira punção entre os pacientes nos quais conseguiu identificar uma veia adequada. Essa condição é importante: o percentual não representa todas as pessoas que se aproximaram da máquina, mas os casos em que o sistema decidiu que poderia realizar a punção.
- 92,7% de sucesso em pessoas que relataram acesso venoso difícil;
- 97,4% entre participantes com índice de massa corporal acima de 30;
- 93,4% em participantes com 65 anos ou mais;
- 0,6% de eventos adversos, todos classificados como leves;
- 90% relataram dor menor ou semelhante à coleta manual;
- 82% disseram preferir a Aletta no futuro ou não ter preferência entre o robô e a coleta manual.
Outra coorte, com 153 participantes, comparou resultados laboratoriais de amostras coletadas pelo robô e por profissionais. Os pesquisadores não observaram diferenças estatisticamente significativas nos cinco parâmetros avaliados, entre eles contagem de plaquetas e tempos de coagulação. Ainda assim, o trabalho analisou uma versão investigacional do equipamento e foi realizado em um número limitado de centros europeus. A autorização da FDA também se apoiou em dados clínicos apresentados à agência, segundo os quais o desempenho foi comparável ou superior ao de profissionais treinados quando o robô prosseguiu com a punção.
O robô não elimina a supervisão humana
Nos Estados Unidos, a Aletta foi autorizada para uso em adultos, em ambientes ambulatoriais e sob supervisão de um profissional treinado em flebotomia. A sessão é iniciada por esse supervisor, que permanece por perto, confirma a ordem dos tubos e verifica se eles foram preenchidos adequadamente. Uma pessoa pode acompanhar até três máquinas simultaneamente.
A proposta é automatizar coletas rotineiras e liberar a equipe para pacientes que demandam atenção extra, não extinguir o atendimento manual. Casos em que o robô não identifica uma veia adequada, situações clínicas fora da indicação e eventuais alertas de segurança continuam exigindo atuação profissional. A fabricante também terá de treinar supervisores, manter o equipamento e integrar o fluxo automatizado aos sistemas do laboratório.
A decisão foi concedida pela via De Novo, usada nos EUA para dispositivos inéditos de risco baixo a moderado que ainda não têm um produto equivalente no mercado. Além de permitir a comercialização da Aletta, a autorização cria uma categoria regulatória e controles especiais para futuros aparelhos semelhantes, incluindo exigências de rotulagem e testes clínicos e de desempenho.
Quando a Aletta chega aos hospitais?
A Aletta já possui marcação CE para uso clínico na União Europeia e está em implantação clínica e pré-comercial no continente. A Vitestro afirma que a estreia comercial acontecerá primeiro na Europa. Nos Estados Unidos, apesar da autorização concedida em 19 de agosto de 2026, ainda não há uma data de venda: a empresa pretende ampliar a fabricação, montar a infraestrutura comercial e realizar outro estudo multicêntrico antes da distribuição em etapas.
Também não há anúncio de lançamento no Brasil nem registro divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Portanto, a decisão norte-americana valida a entrada regulatória da tecnologia em um dos principais mercados mundiais, mas não significa que o robô já esteja disponível em laboratórios brasileiros ou mesmo em toda a rede de saúde dos EUA.
O avanço coloca a coleta de sangue entre as tarefas médicas que começam a migrar da automação de bastidores para o contato direto com pacientes. O desempenho clínico é promissor, mas a adoção dependerá de custo, treinamento, integração aos laboratórios e novos dados obtidos fora dos centros que participaram dos testes iniciais.
Veja o robô em ação
O vídeo oficial da Vitestro mostra a Aletta realizando todas as etapas da coleta, do posicionamento do braço à aplicação do curativo:
Fontes: FDA, Vitestro, Clinical Chemistry e ClinicalTrials.gov.