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Em A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan, a adaptação da obra de Homero ganha a roupagem megalomaníaca característica do seu diretor que, neste novo longa, também se permite um pouco da contemplação e reflexão que a jornada de Odisseu trás consigo durante as quase 3 horas de filme. É sem dúvidas, um Nolan mais inspirado, mas que ainda tropeça nos mesmos vícios de sempre. Confira a nossa crítica a seguir.
História e direção
Contada de forma não linear e por meio de diversos narradores, A Odisseia conta a história de Odisseu (Matt Damon) em sua jornada para retornar a Ítaca após a queda de Troia, enfrentando inúmeras provações impostas pelos deuses enquanto tenta fazer as pazes com os pecados cometidos durante a guerra.
É curioso a maneira como Christopher Nolan opta por contar a jornada de Odisseu, pois, em muitas formas, ela acaba se assemelhando muito ao seu último filme, Oppenheimer (2026). E talvez não seja por um acaso que o diretor diga que A Odisseia é uma sequência espiritual da biografia do físico teórico, visto que tanto Odisseu quanto J. Robert Oppenheimer enfrentam dilemas semelhantes em suas histórias.
O longa é contado por meio dos fragmentos de memória de Odisseu misturado dos relatos de coadjuvantes que conheciam o rei de Ítaca e pula tanto para o passado quanto para o futuro ao longo de sua duração. Esse vai e volta se torna um tanto quanto confuso em seus minutos iniciais devido a maneira de Nolan em dramatizar seu roteiro, que foca muito mais em transições rápidas do que propriamente criar um espaço para que os conflitos cresçam naturalmente na trama.
No entanto, o filme começa de fato quando Odisseu brinca com a própria sorte e dá de frente com os desafios que os deuses jogam sobre ele e sua tripulação. São nesses momentos que o diretor brilha e sai da mesmice, aproveitando vários desses encontros para flertar com a magia através das lentes do terror. É a maneira mais Nolan possível de manter seu realismo característico enquanto mexe com a fantasia.
Claro, não daremos spoilers, mas é nas cenas do ciclope e da feiticeira, por exemplo, que o diretor britânico consegue construir a tensão ao demonstrar bem a grandiosidade ou misticidade desses seres ao brincar com jogos de sombras, efeitos práticos e a despreocupação em não tornar tudo autoexplicativo para que essas sequências gerem o terror necessário para que elas impressionem.
Não a toa que a jornada de Odisseu é a parte mais forte de sua trama, pois é um Nolan que mais se preocupa em fazer um show com a mitologia daquilo que está adaptando do que explicando o que não precisa. Logo, quando mudamos para o núcleo de Telêmaco (Tom Holland) e sua mãe, Penélope (Anne Hathaway), no jogo político da casa de Odisseu, o contraste de qualidade entre as duas tramas fica mais evidente, mostrando uma deficiência do diretor em dramatizar seus diálogos.
E pela natureza não-linear da história, trocar entre esses dois núcleos ao longo da duração total do filme faz com que a produção oscile em qualidade, que fica mais escancarado ainda nos 40 minutos finais pelo estilo do diretor de apenas jogar informações em tela do que propriamente conduzir a linha narrativa nos moldes de um drama clássico, algo que daria muito mais certo aqui.
Felizmente, o desenvolvimento de Odisseu, aqui com uma roupagem de um guerreiro cansado e traumatizado, é o que mais toma tempo de tela e o casamento da pequenez humana diante das adversidades divinas torna esse casamento entre realismo e magia perfeito na intenção da história que Nolan quer contar.
Elenco e atuações
Um dos fatores que mais chama atenção em A Odisseia é certamente seu elenco, formado por nomes de peso do mercado Hollywoodiano. Ao longo de suas 2 horas e 52 minutos de duração, há espaço de sobra para que cada ator tenha seu momento de brilhar, enquanto outros desperdiçam a oportunidade.
Matt Damon não reinventa a roda na sua interpretação de Odisseu, mas o carisma do ator e seu semblante mais envelhecido dão o tom certo a reinterpretação do personagem nos moldes de um herói moderno — aquela figura cansada de moralidade acinzentada, que carrega em seus ombros as consequências de suas escolhas.
Papel esse que é muito mais fortalecido junto do elenco de coadjuvantes que possuem não apenas presença, mas peso a jornada pessoal de Odisseu.
Lupita Nyong’o, John Leguizamo e Himesh Patel estão ótimos, mas dois papéis que se destacam em suas breves aparições são Samantha Morton (como Circe) e Elliot Page (como Sinon). Curiosamente, ambos fazem parte das duas melhores cenas do filme, logo, suas excelentes atuações são potencializadas pela direção de Nolan, que resolve sair da casinha nessas respectivas sequências.
Voltando a falar no diretor, ainda é deprimente que Christopher Nolan desperdice inúmeras vezes o potencial da maioria dos papéis femininos de suas produções. Zendaya parece interpretar Atena da mesma forma que seu papel em Duna de 2021; enquanto Charlize Theron como Calipso se demonstra apática nas poucas vezes que aparece.
Quem sofre mais com tudo isso é a talentosíssima Anne Hathaway, que tenta fazer milagres com tão pouco. A atriz demonstra total controle das emoções de Penelope, mas é triste ver que, no fim, seu papel se resume em apenas chorar e ficar parada.
Já Robert Pattinson, que atua diversas vezes ao lado de Hathaway como Antínoo, pretendente de Penelope, parece estar muito à vontade na pele do antagonista do longa. O manipulador personagem ganha graça devido a uma abordagem mais caricata vinda do ator, transformando-o naquele típico vilão “ame ou odeie”.
E, apesar dos papéis oscilarem em quesito de desenvolvimento, em nenhum momento duvida-se da capacidade técnica de seus atores. Porém, é necessário salientar que Tom Holland parece ser a ovelha negra entre os nomes do elenco. Mesmo em um papel simples como o de Telêmaco, a limitação do ator é tão aparente durante o filme que chega ser incômoda.
Basicamente, Tom Holland atua como se ainda estivesse preso a seu papel na Marvel. O ator britânico parece incapaz de distinguir o que faz de Telêmaco ser diferente de Peter Parker, o que ocasiona em diversas cenas cujo o ator parece totalmente deslocado de seus colegas de elenco.
Trilha Sonora
Ganhador de 3 oscars e reunindo-se pela terceira vez com o diretor, é impossível não separar um tópico dedicado a Ludwig Göransson para falar da trilha sonora assinada por ele, pois, mais uma vez, sua música é uma peça fundamental na construção das cenas de A Odisseia.
O elemento que mais chama atenção aqui é a ausência de uma orquestra na gravação das músicas. O compositor deixou de lado uma orquestra clássica em detrimento da experimentação, e utilizou instrumentos típicos da antiga Grécia e inúmeros gongos de bronze para criar um som autêntico dessa era.
E, ao contrário da sua trilha em Oppenheimer, sempre presente em quaisquer movimentos do físico teórico e totalmente onipotente — às vezes irritante por conta disso, a trilha de A Odisseia sabe quando permanecer a postos e quando agir. E quando age, o som da percussão casa perfeitamente com a megalomania do diretor e dá um ar muito mais grandioso e intimidador a esses mitos em cena.
Não será surpresa se Göransson levar sua quarta estatueta para casa ano que vem, já que, mais uma vez, o compositor sueco demonstra um domínio claro do material narrativo que lhe é entregue e permite que a música seja um personagem tão importante quanto o herói grego.
Aspectos Técnicos
Sim! Assistimos A Odisseia em IMAX e beleza da tecnologia das câmeras e a potência de seus sistemas de som transformam o longa em uma experiência impressionante — ainda que com vários deslizes pelas decisões criativas de Nolan.
A começar pelo design de áudio e mixagem, que quase se comportam como personagens à parte. Em muitos momentos da sessão, era possível notar as cadeiras vibrando pelos sons intensos seja das tempestades, ou até dos gritos do ciclope. Tal potência ajuda, e muito, na construção da narrativa do filme, que dá uma maior dimensão dos perigos de Odisseu enfrenta.
A fotografia de Hoyte van Hoytema é muito bem valorizada no formato IMAX, que trabalha bem em capturar a grandiosidade das forças da natureza e da arquitetura grega e até nos aproximar de Odisseu nos momentos mais íntimos da sua jornada.
No entanto, nem sempre o diretor de fotografia faz milagres. Devido ao fascínio de Nolan por um realismo pé no chão até demais, aspectos da arquitetura dos cenários como até dos figurinos por vezes deixam sua fotografia com um gosto meio “plastificado”, deixando composições de cena inteira pouco inspiradas.
Claro, não é culpa de Hoyte van Hoytema aqui. A direção de arte é responsável por muitos momentos do filme onde suas imagens beiram do profissionalismo ao amadorismo.
Armaduras parecem ser feitas de plástico e nunca possuem marcas de uso e tempo, o que é totalmente contraditório quando notamos que Odisseu e sua tropa estão no mar há vários anos. Cenários totalmente escuros não valorizam o interior de suas arquiteturas, e aquilo que já é sem textura, fica com aparência muito mais artificial, mesmo diante de ambientes inteiramente naturais.
Apesar disso dessas distrações, a estrutura do filme não perde força pelo competente trabalho da Jennifer Lame, que tenta dar um ar contemplativo ao longa mesmo diante da natureza de Christopher Nolan em priorizar cortes cada vez mais imediatos.
É impossível priorizar o silêncio na montagem quando o diretor não tem intenção de trabalhar assim, então, Jennifer aproveita para dar breves respiros a produção quando está diante da magnificência daquele universo durante as viagens de Odisseu. Além disso, a estrutura não-linear é mais natural aqui, muito pela natureza de “contos” que A Odisseia tenta emular com seus vários narradores.
Ainda não é um trabalho de montagem ideal, da mesma forma quando falamos da fotografia e design de produção. Mas quando todos os setores do filme se permitem acertar, o resultado é um show técnico e visual muito impressionante, independente de sua sala de cinema ser em IMAX ou não.
Conclusão
A Odisseia é um filme ideal para Christopher Nolan pôr seus vícios em práticas devido a toda a sua premissa e temática, ainda que ao mesmo tempo, seja o motivo que o também leva a ainda cometer os deslizes de sempre.
Dramatizar diálogos nunca foi o forte do cineasta, mas encontra na forma de contos uma chance de colocar as suas famosas exposições de forma mais natural na história. E ao sair dessa zona para brincar com efeitos visuais e somar outros elementos técnicos em seus espetáculos visuais, encontra na história de Odisseu uma chance de fazer várias das suas cenas mais inspiradas até então.
Portanto, A Odisseia é essa mistura de um Nolan burocrático e ao mesmo tempo ousado, mas que mantém a experiência coletiva e individual do cinema mais viva do que nunca.
Onde assistir
A Odisseia já está em exibição nos cinemas brasileiros, com vendas disponíveis pelo site ingresso.com.
Assista ao trailer
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Revisado por Tiago Rodrigues em 20/07/2026