Crítica: Blade Runner 2049 é a continuação perfeita do clássico de 1982

Blade Runner 2049
Blade Runner 2049 é uma verdadeira obra-prima da sétima arte, uma continuação perfeita e que torna evidente o talento de Denis Villeneuve.

Denis Villeneuve é um dos melhores diretores da nossa geração. Ponto.

Blade Runner 2049 é a continuação do clássico de 1982, Blade Runner, e que foi dirigido por Ridley Scott. O número “2049” indica o ano no qual a trama se passa, exatos 30 anos depois dos eventos do primeiro filme, que ocorreram em 2019. Na vida real, porém, o espaço entre um filme e outro são de 35 anos.

O filme original é um clássico praticamente irretocável e um divisor de águas para o gênero de ficção científica no cinema. A responsabilidade de se fazer uma continuação é enorme! As chances do filme ser ruim eram enormes. Mas o que eu vi na tela de cinema foi uma continuação perfeita, uma obra-prima da Sétima Arte!

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Sobre o enredo

Neste filme acompanhamos o Policial K, interpretado aqui por Ryan Gosling. Ele é um replicante e, ao mesmo tempo, blade runner, ou seja, trabalha “aposentando” androides de gerações passadas, que são considerados como uma ameaça. Em um de seus trabalhos ele se depara com um poderoso segredo, capaz de desencadear uma guerra entre replicantes e humanos.

Eu não posso revelar muito mais da trama nesse texto, sob a penalidade de estragar parte da sua experiência ao assistir o filme. Blade Runner 2049 não é um filme de reviravoltas, embora contenha as suas, mas os detalhes revelados ao longo das 2h43m de projeção são fundamentais para uma completa apreciação do longa. Portanto, para evitar spoilers, vou me reservar ao direito de não falar mais a respeito da trama em si.

Sobre a narrativa

Visto se tratar de uma continuação do clássico de 1982, Blade Runner 2049 precisa ter algumas semelhanças com o seu predecessor. E temos isso em diversos aspectos, inclusive no narrativo. Aqui temos uma história, especialmente nos dois primeiros atos, lenta, arrastada e bem contemplativa. Villeneuve não tem pressa em contar a história de “K”. No lugar das perseguições frenéticas e cheias de explosões, temos planos bem longos, silenciosos e contemplativos.

Blade Runner 2049 é, essencialmente, um filme de atmosfera. E o diretor, juntamente com o diretor de fotografia, conseguiu recriar a atmosfera desoladora e solitária do primeiro filme mas sem parecer uma mera cópia. Temos a clara percepção de que o mundo distópico de Blade Runner evoluiu naturalmente nesses 30 anos. Assim, Villeneuve consegue expandir esse universo com sucesso.

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Os aparatos tecnológicos estão melhorados, mas muitos elementos do primeiro filme ainda estão lá: os letreiros luminosos com anúncios, os prédios demasiadamente altos e desolados, a chuva constante, uma sociedade em ruínas e sem amor ao próximo, carros voadores, etc. Blade Runner 2049 reverencia a obra original, fazendo constantes referências, mas sem deixar de ser inédita, evoluída.

O filme é uma crescente constante. Como já falei, ele começa arrastado. Ele chega até a dar pinta de que será um clichê pouco empolgante. Mas a medida que os mistérios vão sendo revelados, a cada novo passo dado pelo protagonista, a história vai ganhando força até que, no terceiro ato, estamos tão emocionalmente envolvidos com os personagens que já não conseguimos mais desgrudar os olhos da tela.

Atuações precisas

O ritmo narrativo também é evidenciado pelas atuações, em especial de Ryan Gosling. O seu personagem, até metade do filme, é um cara sério, frio e de poucas palavras. Em nenhum momento ele esboça um sorriso ou demonstra algum sentimento mais humano. Ele tem plena consciência de que é uma máquina, um replicante. Assim, age como tal, apenas obedecendo ordens.

Porém, à medida que ele vai desvendando os mistérios acerca de sua natureza, de seu surgimento, seu semblante vai mudando. De um personagem frio e de poucas emoções, vemos um ser altamente emotivo e que deixa transparecer isso. A atuação de Ryan Gosling aqui é absolutamente precisa.

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Harrison Ford, quando entra em cena, também traz um peso emocional muito forte. Embora ele tenha pouco tempo de tela, a atuação do veterano ator é sublime, especialmente quando interage com Gosling. Os diálogos entre os dois são excelentes e totalmente plausíveis.

Também temos ótimas atuações dos antagonistas. Jared Leto interpreta Niander Wallace, o empresário megalomaníaco que trouxe os replicantes de volta à vida, dessa vez aperfeiçoados. Ele deve aparecer por, no máximo, 15 minutos. O que é suficiente para o encararmos como um ser distante, cruel e mesquinho. Seu braço direito, a replicante Luv, vivida aqui por Sylvia Hoeks também está excelente e é protagonista das cenas mais tenebrosas do longa. Quando ela entra em cena, tememos pela vida dos personagens à sua volta.

Discussões filosóficas aprofundadas

O Blade Runner original é bastante cultuado muito em função das temáticas abordadas: o que nos torna humanos e, definitivamente, a busca desesperada por mais vida. Em Blade Runner 2049 também temos uma ampliação dessas discussões.

A discussão sobre o quê torna alguém humano é ainda mais amplificada. Discute-se também a importância das memórias e como elas definem a personalidade de alguém. Também muito se fala sobre o amor (é possível amar uma máquina/holograma?), sobre sacrificar-se pelas causas certas, perpetuar-se, enfim… As camadas de sub-texto do filme são vastas e rendem boas conversas com os amigos.

Fotografia sublime

O diretor de fotografia é o britânico Roger Dickens, que já é um habitual parceiro de Denis Villeneuve, tendo trabalhado com o diretor em filmes como Sicário: Terra de Ninguém (Sicario, 2015) e Os Suspeitos (Prisoners, 2013). Porém, o currículo de Dickens é recheado de obras maravilhosas, como Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994), Onde os fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, 2007), 007 – Operação Skyfall (Skyfall, 2012), Bravura Indômita (True Grit, 2010), dentre outros.

A cinematografia de Blade Runner 2049 é esplêndida! Se no filme de 1982 nós tínhamos uma única atmosfera sombria, nesta continuação Dickens cria uma atmosfera para cada ambiente. Às vezes vemos a fotografia escura e chuvosa da cidade de Los Angeles característica do primeiro filme; outras vezes temos uma paleta de cores mais quente, pendendo para o sépia e, em outros momentos, temos uma paleta de cor super saturada e com predominância do amarelo alaranjado, que denota o clima quente e seco das áreas devastadas por uma tragédia nuclear.

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Porém, o pleno domínio da luz e sombra se faz bem evidente aqui. Não é raro os personagens estarem contra a luz, revelando apenas a sua silhueta frente a um plano de fundo belíssimo e melancólico. Em outras cenas, os personagens estão envolto em sombras e, às vezes, apenas parcialmente nas sombras. Uma análise mais detalhada de cada cena certamente irá revelar mensagens escondidas em cada uma dessas tomadas que revelam certa característica ou motivação do personagem.

Acredito que desta vez Roger Dickens, que já foi indicado 13 vezes ao Oscar, leva a estatueta. Muitos frames do filme dão belos quadros para pendurar na parede.

Trilha sonora familiar mas diferente

A trilha sonora de Blade Runner 2049 fica a cargo de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer. Aqui eles reverenciam a trilha do primeiro filme, feita por Vangelis, mas não deixam de dar o seu toque pessoal. Em alguns momentos de tensão sintetizadores parecem mais motocicletas rasgando ensandecidamente as ruas.

Já em outros momentos, temos nada mais do que o claustrofóbico silêncio, que incomoda mais do que qualquer outra coisa no filme.

É preciso assistir o primeiro filme?

A maioria das pessoas está dizendo que não. Já eu acho que sim. Como já expliquei nos parágrafos anteriores, o filme atual reverencia bastante o clássico de 1982, inclusive mostrando trechos de conversa passados no primeiro filme. Além disso, personagens principais da trama de 1982 também estão presentes, como Deckard, vivido por Harrison Ford.

Portato, para se ter um pleno entendimento do filme, eu considero imprescindível você assistir ao anterior antes. Até para já entrar no ritmo e atmosfera de Blade Runner e situar-se melhor na história.

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Não é um filme para todo mundo

Eu adorei Blade Runner 2049! Mas devo reconhecer que ele não é um filme para o “público médio”. A começar pela duração da projeção, 163 minutos. Some-se a isso o ritmo lento da narrativa, onde as discussões, muitas delas éticas e filosóficas, são feitas em sua maioria nas entrelinhas, em forma de um sub-texto bem subjetivo. Isso obriga o espectador a pensar e a estar o tempo todo interpretando o que vê em tela.

Para piorar ainda mais a situação, o filme está sendo vendido como um blockbuster de ação policial. O que ele está longe de ser! Ele tem sim cenas de ação, que são muito bem coreografadas e filmadas, mas ela são bem pontuais e não se estendem muito. Por falar nelas, eu achei as sequências de ação extremamente realistas, viscerais e plausíveis. Não é aquele tipo de cena que você assiste e pensa: “Poxa, que mentira grande!”.

No entanto, devido aos fatores acima citados, acredito que Blade Runner 2049 será um sucesso de crítica (como já está sendo), mas não agradará tanto ao público no geral.

Cheirinho de Oscar!

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Blade Runner 2049 tem um cheirinho de Oscar danado! Acredito que ele deva concorrer nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Ator (Ryan Gosling), Atriz Coadjuvante (Ana de Armas), Roteiro Original, Direção de Arte, Fotografia, Figurino e Edição.

Aposto que ele vai concorrer nessas categorias. Se vai ganhar, é outra história. Se estou certo ou não, saberemos em fevereiro de 2018. Mas que tem um cheirinho de Oscar, tem!

Nota 10/10 – Excelente

Portanto, levando em consideração a direção magistral de Denis Villeneuve, a fotografia sublime de Roger Dickens, o roteiro intrigante e bem amarrado de Hampton Fancher (roteirista também do primeiro filme) e Michael Green, as atuações precisas de todos os atores e uma história que expande o universo de 1982, eu dou nota máxima à Blade Runner 2049: 10/10.

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