O que é a fictossexualidade?

O que é a Fictossexualidade?

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Entenda o que levou um japonês de 35 anos a se casar com um holograma de uma cantora virtual e descubra tudo sobre Fictossexualidade e seus tipos

Você já se apaixonou alguma vez? Se você já se apaixonou, sabe muito bem que nessa hora o coração é quem manda e muitas vezes não temos controle. Mas e quando o coração escolhe um personagem fictício? Isso é possível? Sim, e pode ser chamado de Fictossexualidade. Nesse post explicaremos essa orientação sexual e por qual razão difere de um fetiche ou fantasia.

O que é Fictossexualidade?

Bandeira fictossexual (roxo) e fictoromântica (verde). O buraco rosa representa um portal para a mídia de escolha que permite a atração - o universo fictício está no círculo
Bandeira híbrida Fictossexual (roxo) e Fictoromântica (verde). O buraco rosa representa um portal para a mídia de escolha que permite a atração — o universo fictício está no círculo (Imagem: imoga)

A fictossexualidade, chamada também de fictofilia, é um termo genérico que descreve uma pessoa que sente atração sexual e/ou romântica por personagens inventados.

O objeto de desejo pode ser um personagem de livro, história em quadrinhos, televisão, cinema, jogos, etc. A fictossexualidade não exclui necessariamente outras formas de sexualidade ou atração por pessoas reais.

Tanja Välisalo, pesquisadora finlandesa da Universidade de Jyväskylä, e co-autora do estudo Fictosexualidade, fictoromance e fictofilia: um estudo de amor e desejo por personagens fictícios, publicado em janeiro de 2021.

É importante ressaltar que não deve ser confundida com atração por atores ou atrizes que interpretam personagens fictícios, mas sim pela própria persona fictícia em si.

Essa atração também difere de uma fantasia sexual ou fetiche. A fantasia é geralmente um pensamento ou desejo passageiro, enquanto a fictossexualidade é uma orientação ou identidade sexual mais permanente.

Katie Lasson, consultora de sexo e relacionamento, explica que fantasias envolvendo personagens fictícios não são incomuns, mesmo para pessoas que não se identificam como fictossexuais. Ela menciona como exemplo Jessica Rabbit, a cantora ruiva de desenho animado do filme Uma Cilada para Roger Rabbit de 1988, como um exemplo popular de personagem fictício que desperta fantasias em muitas pessoas.

Jessica rabbit é uma personagem animada que se destaca por sua sensualidade, é considerada uma das mais sexy da história do cinema, apesar de ser um desenho animado. Ela foi criada como uma sátira às "mulheres fatais" que eram populares em hollywood durante os anos 1940
Jessica Rabbit é uma personagem animada que se destaca pela sensualidade e é considerada uma das mais sexy da história do cinema, apesar de ser um desenho animado. Ela foi criada como uma sátira às “mulheres fatais” populares em Hollywood durante os anos 1940 (Imagem: BTalks Movies)

De acordo com um artigo publicado no site norte-americano dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), os fictossexuais fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer, Intersexo, Assexuais/Arromânticas/Agênero, Pan/Poli, Não-binárias e mais).

É uma orientação sexual que ainda possui poucos estudos, mas é próxima da assexualidade cinza (grey sexual), sendo as pessoas que experimentam atração sexual raramente, em intensidade baixa ou sob circunstâncias específicas.

Porém, mesmo que alguns fictossexuais se identifiquem como assexuais, eles também podem se identificar com outras orientações, como, por exemplo, os bifictossexuais, que sentem atração por personagens fictícios masculinos e femininos.

Ser “fictosex” não está limitado a uma orientação sexual específica e pode ser experimentado por pessoas de diversas orientações.

Conforme dito no site Newsweek por Amy Pritchett, especialista em relacionamentos do portal MyDatingAdviser, um dos principais benefícios da atração fictossexual é que seu parceiro imaginário “não pode discutir com você, terminar o relacionamento ou fazer coisas indesejáveis que pessoas reais fazem. De certa forma, casar-se com um personagem fictício é semelhante a se casar consigo mesmo, pois eles nunca vão desafiá-lo.”

As pessoas fictossexuais experimentam uma conexão íntima e emocional com esses personagens imaginários, e essa atração pode ser tão forte e significativa quanto a atração por pessoas reais, levando milhares de pessoas, principalmente no Japão e Estado Unidos, a se casarem em cerimônias especiais.

Um dos casos mais famosos de relacionamento fictossexual que ganhou as mídias foi o do japonês Akihiko Kondo, que se casou com a cantora virtual Hatsune Miku.

O casamento de Akihiko Kondo e Hatsune Miku

Na indústria dos casamentos com personagens fictícios, uma variedade de serviços é oferecida, que vão desde cerimônias de casamento até sessões de fotos, e até mesmo assistência na obtenção de certidões de casamento não oficiais
Na indústria dos casamentos com personagens fictícios, uma variedade de serviços é oferecida, que vão desde cerimônias de casamento até sessões de fotos, e até mesmo assistência na obtenção de certidões de casamento não oficiais (Imagem: Scrabbl)

Durante sua adolescência, Kondo teve experiências românticas com mulheres humanas, mas nenhuma delas foi bem-sucedida. Foi somente quando ele entrou na fase adulta e enfrentou dificuldades no trabalho, devido ao bullying por parte de superiores femininas, que ele conheceu Hatsune Miku.

Durante sua licença médica, enquanto se recuperava em casa, Kondo ouviu Miku cantando em um site de compartilhamento de vídeos. A voz cristalina da personagem encantou-o, proporcionando-lhe um refúgio da solidão e das dificuldades. Desde então, Miku se tornou sua companheira.

Hatsune Miku, conhecida por seus cabelos turquesa e uma aparência juvenil, é uma Vocaloid — um software de canto desenvolvido pela Yamaha, e que conquistou fãs ao redor do mundo com suas apresentações virtuais, tendo até mesmo aberto shows para a famosa cantora Lady Gaga.

Foi em 2018 que Kondo e Miku oficializaram seu relacionamento em uma cerimônia especial realizada em Tóquio. O relacionamento entre Kondo e Miku começou em 2008 e perdura até agora. Akihiko Kondo investiu não apenas emocionalmente, mas também financeiramente nessa união.

Uma parte da coleção de bonecas da hatsune miku que akihiko kondo possui
Uma parte da coleção de Akihiko Kondo de bonecas da Hatsune Miku (Imagem: Twitter/X)

Além do casamento para 39 convidados que custou cerca de US$ 17.000 (R$ 84.621,34), ele possui uma coleção de bonecas da Miku, incluindo uma figura em tamanho real especialmente encomendada.

Toda vez que Kondo volta para casa, ele se dirige a Miku dizendo “cheguei” e ao acordar, ele também lhe deseja “bom dia”. Essa interação, embora possa parecer estranha aos olhos de muitos, é uma expressão do amor e da conexão emocional que Kondo sente em relação à personagem.

Além disso, ele adquiriu um Gatebox, um dispositivo holográfico que permite interagir com personagens fictícios, por um valor de US$1.300 (R$ 6.471,04).

Akihiro kondo ao lado de um holograma de sua companheira hatsune miku
Akihiro Kondo ao lado de um holograma de sua companheira Hatsune Miku (imagem: CNN)

Desde que seu casamento com Miku foi divulgado, Kondo tem recebido mensagens de apoio de pessoas que também amam personagens fictícios.

Kondo descobriu que muitos de seus colegas também compartilhavam experiências semelhantes. Ele mencionou que nunca havia conhecido alguém que se considerasse fictossexual de nascimento, mas acredita que outros fictossexuais podem ter desenvolvido sentimentos por personagens fictícios enquanto também se envolviam romanticamente com pessoas reais.

Uma pesquisa realizada em 2017 pela Associação Japonesa de Educação Sexual revelou que mais de 10% dos jovens japoneses têm sentimentos românticos por personagens de animes e jogos. Surpreendentemente, as mulheres demonstraram um maior envolvimento emocional, representando 17,1% das respostas. 

Essa descoberta trouxe uma sensação de pertencimento e compreensão para Kondo e aqueles que compartilham sua afeição por personagens fictícias. Muitos desses indivíduos estão passando por momentos difíceis em suas vidas e encontram consolo e apoio emocional em animes e personagens. A existência de uma comunidade que compreende suas experiências lhes dá um espaço seguro para expressar suas emoções e compartilhar suas preocupações.

O japones akihiko kondo arrumando o cabelo de sua companheira
O japonês Akihiko Kondo arrumando o cabelo de sua companheira (Imagem: O Globo)

Kondo, em resposta a um repórter, compartilhou as dificuldades que enfrentou devido à incompreensão e ao julgamento dos outros em relação à sua paixão. Ele revelou que perdeu a conta de quantas vezes foi rotulado como “nojento” e “doente” por dedicar tempo a um personagem fictício.

No entanto, ele ressaltou que não pode fazer nada se as pessoas se sentem ofendidas com sua escolha de investir emocionalmente em um personagem. Em junho de 2023, Kondo e um grupo de amigos decidiram criar a Associação dos Fictossexuais, uma organização dedicada a reunir e promover o entendimento público. 

Essa iniciativa busca não apenas oferecer um espaço seguro e de apoio, mas também impulsionar uma mudança social mais ampla. Ao desafiar os estereótipos e confrontar a discriminação, a associação espera promover uma sociedade mais inclusiva, onde todas as formas de amor e afeto sejam valorizadas e respeitadas.

Tipos de Fictossexualidade

A bandeira animassexual, conhecido como animessexual ou mangassexual, é uma identidade no espectro assexual. É uma forma de fictissexualidade onde a atração é exclusiva ou quase exclusivamente direcionada a personagens de anime/mangá
A bandeira Animassexual, conhecido como animessexual ou mangassexual, é uma identidade no espectro assexual. É uma forma de fictossexualidade onde a atração é exclusiva ou quase exclusivamente direcionada a personagens de anime/mangá (Imagem LGBTQIA+ Wiki)

A fictossexualidade é um termo que serve de “guarda-chuva” para diferentes tipos de atrações por personagens fictícios, sendo esses específicos, generalizados ou que influenciam sexualmente de alguma maneira.

Segundo Rebecca Minor, especialista em gêneros sexuais do site Gender Specialist, a fictossexualidade é frequentemente confundida ou comparada a outros termos além da assexualidade cinza, como a semissexualidade (pouca atração sexual), demissexualidade (atração sexual após forte conexão emocional ou romântica) e até mesmo a egossexualidade (atração sexual por si).

Essa orientação tem despertado debates e discussões sobre a natureza da atração e o papel da imaginação na formação de relacionamentos e desejos, para exemplificar, vejamos alguns tipos conhecidos:

  • Animassexual – a atração exclusiva por personagens de anime/mangá;
  • Cartossexual – atração por personagens de desenhos animados/quadrinhos;
  • Visualnovelsexual – atração por personagens de novelas visuais;
  • Gamosexual – atração por personagens de videogame;
  • Imagissexual – atração por personagens fictícios que nunca podem ser vistos (personagens de livros, personagens de podcasts, etc.);
  • Inreassexual – atração por personagens de programas de TV/filmes em live action;
  • OCsexual – atração por personagens originais;
  • Teratosexual – atração por personagens relacionados a monstros;
  • Tobusexual – atração por personagens relacionados a vampiros;
  • Spectrosexual – atração por personagens relacionados a fantasmas;
  • Nekosexual – atração por personagens relacionados a nekos (gatos em japonês);
  • Anuafsexual – atração por outros personagens híbridos de animais e humanos.

É importante destacar que cada pessoa tem suas próprias experiências e vivências, e o que pode parecer estranho ou incompreensível para alguns pode ser profundamente significativo para outros.

Do mesmo jeito que comecei esse post com uma pergunta, vou terminar com outra: será que a produção de bonecos realistas com pele sintética, somada ao avanço da robótica e dos modelos de linguagem de inteligência artificial, irão contemplar as necessidades das pessoas fictossexuais no futuro? Deixe sua opinião nos comentários.

Veja mais:

Fonte: New York Post, Gender Specialist, WeFashionTrends, Newsweek, The Guardian

Revisão do texto feita por: Pedro Bomfim (06/09/23)

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