Teoria defende que cogumelo alucinógeno nos tornou quem somos hoje

cogumelo alucinógeno
O uso de cogumelo alucinógeno por hominídeos teria promovido o desenvolvimento do cérebro humano, mas cientistas contestam essa teoria

A evolução do ser humano é algo que até hoje intriga paleontólogos e cientistas. De acordo com a teoria mais aceita hoje, há cerca de dois milhões de anos atrás o Homo erectus se tornou o primeiro de nossos ancestrais a assumir a postura humana (ou seja, se locomover com o corpo ereto e utilizando apenas as pernas) e a se espalhar pelos diversos continentes existentes no mundo.

Exatamente durante esse êxodo, quando o Homo Erectus saiu da região que hoje conhecemos como a África e se espelhou para as regiões onde atualmente ficam a Ásia e a Europa, alguns membros desta espécie evoluíram e, há cerca de 350 mil anos atrás, se tornaram os primeiros Homo sapiens – a espécie que dominou o planeta e a qual toda a humanidade pertence hoje. 

Sabemos que, para que essa evolução tenha ocorrido, essa característica de movimento foi muito importante, pois fez com que nossos ancestrais encontrassem diversas espécies de plantas, animais e ambientes diferentes, o que exigiu que eles se adaptassem para sobreviver e ajudou no desenvolvimento do cérebro humano até o ponto em que estamos hoje. Mas uma teoria interessante sugere um novo caminho para esse desenvolvimento: e se ele só foi possível por causa do uso de um componente alucinógeno?

A Teoria do Símio Chapado

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Criada por Terence McKenna, esta hipótese sugere que o ser humano adquiriu consciência quando seus ancestrais abusaram do consumo de cogumelos alucinógenos (Imagem: Reddit)

Apresentada pelo etnobotânico Terence McKenna no livro O Alimento dos Deuses, publicado em 1992, a Teoria do Símio Chapado defende que o fato que possibilitou a evolução do Homo Erectus para o Homo sapiens foi ter encontrado cogumelos alucinógenos em sua exploração do mundo, e que foi o seu consumo que permitiu a expansão das capacidades cerebrais e a evolução para a atual espécie humana.

McKenna afirmava que esses cogumelos possuíam a substância conhecida como psilocibina, e que foi ela que permitiu que os processos primitivos de processamento de informações do Homo erectus fossem rapidamente reorganizados, sendo o responsável pelo rápido desenvolvimento cognitivo que deu origem aos primeiros indícios de linguagem, artes e tecnologia encontrados em registros arqueológicos do Homo sapiens. Para McKenna, os primeiros humanos encontraram uma consciência superior nos alimentos que consumiam, e foi esta consciência que nos tirou do mundo animal e nos trouxe para o mundo da comunicação articulada e da imaginação.

O etnobotânico explica que a evolução cultural humana rapidamente nos levou a criar os animais que usávamos de alimento ao invés de simplesmente caçá-los pela região, e isso nos fez ter um maior contato com as fezes desses animais – um fertilizante natural para os cogumelos alucinógenos. Assim, essa interdependência entre os humanos e o gado (que serviam não apenas de alimento, mas também ajudava no cultivo de cogumelos) foi o responsável pelo homem ter enxergado seus primeiros deuses e iniciado uma longa história de rituais religiosos.

Uma lacuna na evolução

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As três espécies que serviram de ancestrais para o que hoje conhecemos como o ser humano (Imagem: National Geographic)

Apesar de McKenna ter falecido defendendo apaixonadamente essa tese, ela nunca foi considerada de forma séria pela comunidade científica, que considera a teoria muito especulativa e praticamente impossível de ser provada. Mas, em 2017, Paul Stamets, um micólogo (profissional dedicado ao estudo de fungos) especialista no estudo dos efeitos da psilocibina e cujo trabalho é bastante reconhecido pela comunidade acadêmica, afirmou que McKenna poderia não estar tão errado como muitos imaginavam.

Em 2017, em uma palestra no evento Psychedelic Science (uma conferência de cientistas, terapeutas, químicos e artistas que acreditam no potencial terapêutico das drogas alucinógenas) Stamets defendeu que a psilocibina foi o catalisador de um fenômeno que, há 200 mil anos atrás, dobrou repentinamente o tamanho do cérebro dos ancestrais humanos, sendo então a responsável pela enorme evolução que a espécie teve nos anos seguintes.

Há um fato nesta fala de Stamets: realmente houve uma dobra repentina no tamanho dos cérebros de nossos ancestrais — ainda que o pesquisador possa ter errado o período em que ele ocorreu. De acordo com os antropologistas, o cérebro humano passou por dois crescimentos repentinos em seu crescimento: entre 2 milhões e 700 mil anos atrás, o cérebro do Homo Erectus dobrou de tamanho e, entre 500 mil e 100 mil anos atrás, o cérebro do Homo sapiens triplicou em volume. Não se sabe exatamente qual foi o causador desse crescimento, e Stamets defende que ele foi provocado pelo consumo de cogumelos alucinógenos.

O que a ciência diz sobre isso

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Cientistas não levam muito a sério a hipótese de que cogumelos alucinógenos foram os responsáveis pela evolução da consciência humana (Imagem: Universidade de Penn State)

Assim, considerando-se as mais recentes descobertas sobre o poder da psilocibina, sobre a consciência humana e as últimas descobertas arqueológicas sobre nossos antepassados, é possível defender que a Teoria do Símio Chapado esteja correta? De acordo com o Dr. Martin Lockley, paleontólogo e professor emérito da Universidade do Colorado (EUA), é possível sim que o consumo de substâncias alucinógenas tenha sido o catalisador do desenvolvimento do cérebro humano.

Mas ele aponta um grande problema na tese de McKenna: se considerarmos como verdadeira a ideia de que nossos ancestrais ficaram tão chapados de alucinógenos que se tornaram conscientes, isso significaria a existência de um único evento responsável pelo despertar da consciência humana. E o consenso da maioria dos cientistas (assim como a opinião do próprio Lockey) é de que não existiu um evento único responsável pelo surgimento desta consciência, mas sim uma confluência de diversos eventos que permitiram este surgimento.

Aquilo que chamamos de consciência é uma das atividades mais complexas do cérebro humano e que, mesmo em 2020, estamos ainda começando a entender como funciona. Hoje, a definição que temos de um “estado de consciência” é que ele é composto de uma percepção de diversas experiências qualitativas (como sensações e sentimentos), nuances das qualidades sensoriais (a reação física que nosso corpo tem com mundo o mundo e que envolve o tato, paladar, visão, audição e olfato) e de processos cognitivos (como o pensamento e a memória). E a descoberta de onde tudo isso é processado é algo muito recente, e apenas em 2016 os cientistas conseguiram apontar qual é a região do cérebro responsável pelo controle de nossa consciência.

Assim, é justamente toda essa complexidade que acaba sendo o maior responsável pela improbabilidade da Teoria do Símio Chapado estar correta, pois ela atribuiria todos esses fenômenos extremamente complexos a um único responsável: a psilocibina, cuja ingestão teria sido o único motivo de os ancestrais humanos começarem a se juntar em comunidades, criar religiões e praticar o sexo não mais apenas como uma necessidade biológica de reprodução, mas como algo prazeroso. E a maior crítica da comunidade científica para a teoria de McKenna não é a de que ela é estritamente impossível, mas que é muito simplista (e até ingênua) para conseguir explicar tão facilmente toda a complexidade que foi a evolução da consciência humana.

Evolução da sociedade

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Cientistas acreditam que a consciência humana é algo muito complexo para ter surgido de um único evento (Imagem: BioEdge)

Mas, se a Teoria do Símio Chapado não está correta, o que então foi o verdadeiro responsável pela evolução da consciência humana? Isso é algo que a ciência ainda não possui uma resposta definitiva, mas de acordo com o Dr. Michael Graziano (pesquisador e professor de psicologia e neurociência da Universidade de Princeton, que há anos tem estudado a consciência humana), a evolução de nossos cérebros está conectada de alguma forma com a formação das sociedades humanas.

Graziano argumenta que, de acordo com seus estudos, o cérebro humano foi obrigado a desenvolver a habilidade de compreender experiências subjetivas como uma espécie de “tática de sobrevivência” para garantir que as primeiras comunidades criadas por nossos antepassados não ruíssem. Para o pesquisador, é possível que o que chamamos de consciência tenha surgido como uma ferramenta para monitorar, entender e prever comportamentos dos indivíduos que dividiam o mesmo espaço com o homem primitivo, e depois de aperfeiçoada nós passamos a utilizar essas mesmas habilidades voltadas para nós mesmos, nos monitorando e nos moldando de acordo com as necessidades da sociedade em que estávamos inseridos.

Quem também acredita que a necessidade de viver em sociedade teve uma grande importância no desenvolvimento da consciência humana é o Dr. Ian Tattersall, professor emérito da Escola de Graduação Richard Gilder (EUA) e curador do Museu de História Natural dos Estados Unidos. Tattersall acredita que o nascimento do que chamamos de consciência se iniciou quando nossos ancestrais começaram a se considerar como algo separado da natureza, tornando-se capazes de avaliar e expressar os pensamentos de sua própria mente. O pesquisador acredita que, quando isso aconteceu, logo as primeiras formas de linguagem foram criadas, seguido então daquilo que hoje chamamos de consciência.

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Uma hipótese muito aceita pela comunidade científica é de que as primeiras sociedades de humanos primitivos foram responsáveis pelo surgimento de nossa consciência (Imagem: Dispatch Review)

E, ainda que exista evidências arqueológicas de que nossos ancestrais do período pré-histórico tenham usado drogas alucinógenas (como a descoberta de esqueletos humanos com traços de papoula nos dentes, de sementes de maconha que foram queimadas, e até mesmo desenhos em cavernas nos Alpes Italianos que indicavam o uso de cogumelos alucinógenos), há diversos buracos na Teoria do Símio Chapado que nos impede de considerarmos como uma explicação válida o uso de drogas alucinógenas como catalisador do surgimento da consciência humana.

De acordo com Elisa Guerra-Doce, professora de arqueologia da Universidade de Valladolid (Espanha), a grande evidência apontada pela teoria de McKenna são alguns desenhos encontrados no sítio arqueológico de Tassili-n-Ajjer, na Argélia, que fazem menção a cogumelos alucinógenos, mas a arqueóloga aponta que esses desenhos datam do período Neolítico – ou seja, cerca de 12 mil anos atrás, bem posterior ao período em que o homem desenvolveu o que chamamos de consciência.

Assim, no máximo a Teoria do Símio Chapado pode ser considerado como uma hipótese improvável que explica parte, mas não todo, o processo de desenvolvimento da consciência humana. Mas isso não quer dizer que McKenna não tenha a sua importância para a comunidade científica ainda hoje, já que foi sua defesa apaixonada desta teoria que abriu os olhos de pesquisadores para uma ideia que, até 1990, não era ainda levada a sério: a de que a psilocibina poderia ser usada para efetuar alterações no cérebro humano.

Alucinógeno terapêutico

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Extraída do que conhecemos como “cogumelos mágicos”, a psilocibina pode esconder uma possível cura para a depressão (Imagem: Universidade John Hopkins)

Desde que McKenna levantou a hipótese da psilocibina ser um poderoso alterador cerebral, diversos estudos com a substância têm sido feitos, e recentemente eles conseguiram provar que a substância conduz o cérebro à “cognição ilimitada”, criando um enorme aumento de atividade na região do cérebro associada com as reações emocionais.

A psilocibina faz com que as atividades cerebrais referentes à memória também se tornem mais coordenadas, fazendo-a funcionar em um estado equivalente ao de pessoas que estão sonhando. Ao mesmo tempo, ela também desorganiza as regiões relacionadas à autovalorização, o que faz com que as pessoas que consumam a substância se sintam separadas do próprio corpo e mais interligadas ao mundo em volta delas. 

Claro, esses cogumelos não devem ser consumidos sem medo, já que o consumo exagerado destes cogumelos alucinógenos pode ser altamente tóxico, mas isso não quer dizer que o princípio ativo deles não pode ser útil para a medicina. Atualmente, a psilocibina faz parte de diversos estudos no desenvolvimento de drogas para o tratamento doenças de ordem psiquiátrica e comportamental, como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, cefaleia em salvas (popularmente conhecida como dor de cabeça suicida), vício em cigarro, álcool e cocaína, além de tratamentos com o objetivo de garantir uma melhor qualidade de vida a pacientes terminais de câncer.

Entre estes estudos, o que está em caráter mais avançado é o uso da substância para tratamento de depressão. Liderado pelo Instituto Usona (instituição de pesquisa dos Estados Unidos com foco no alívio dos sintomas de depressão e ansiedade), o tratamento já foi considerado pela FDA (organização federal dos Estados Unidos que tem como uma de suas principais atribuições supervisionar o desenvolvimento de medicamentos no país) como algo revolucionário para a doença, e em 2019 se iniciou a fase 3 de testes de um antidepressivo que tem a psilocibina como princípio ativo. Caso o resultado seja positivo, é possível que já nos próximos anos os primeiros remédios baseados na psilocibina cheguem às farmácias.

Assim, ainda que a Teoria do Símio Chapado seja algo que possivelmente ficará esquecida nos anais da ciência, ela acabou deixando um legado que poderá ajudar muitas pessoas no futuro, e é bem possível que logo vejamos a psilocibina ganhar uma maior notoriedade como um agente de mudança positiva no mundo. E, ainda que talvez seja impossível provar que os cogumelos alucinógenos foram uma parte importante da evolução de nossos antepassados, tudo indica que logo eles se tornarão uma parte importante de nossa sociedade no futuro.

Fonte: GetPocket, Healthline, Nature, M.A.P.S., RehabSpot

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