Tim Sweeney, fundador e CEO da Epic Games, acusou a Apple de usar lobistas em Washington para pressionar o governo de Donald Trump a punir o Brasil após a abertura do iOS a lojas independentes. Segundo ele, a suposta ofensiva buscaria retaliar o governo brasileiro e minar as relações entre os dois países. O executivo não apresentou provas que liguem a fabricante às medidas americanas, e a Apple classificou a alegação como falsa.
Lobby contra o Brasil
A acusação foi feita em uma entrevista coletiva virtual com jornalistas brasileiros, no lançamento da Epic Games Store para iPhone no país. Segundo a Folha de S.Paulo, Sweeney afirmou que a Apple estaria recorrendo a lobistas em Washington para estimular o governo Trump a agir contra o Brasil. A movimentação seria uma retaliação à atuação do Cade, que resultou em novas regras para a App Store e na abertura do iOS a lojas independentes.
Na versão apresentada pelo executivo, aliados da Apple dentro do governo dos Estados Unidos — especialmente no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) — estariam “constantemente ameaçando” o Brasil e outros países que adotaram regras mais abertas para mercados digitais.
“A Apple está tentando destruir as boas relações entre nossos países para preservar sua capacidade de continuar violando a lei e cobrando taxas ilegais.”
Tim Sweeney, CEO da Epic Games, em entrevista a jornalistas brasileiros
O USTR é o órgão que recomendou ao presidente Donald Trump as duas rodadas mais recentes de tarifas contra produtos brasileiros. As alíquotas podem chegar a 37,5%, e a medida que entrou em vigor em 22 de julho citou, entre as justificativas, práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital e a serviços de pagamento. Sweeney usou esse contexto para sustentar que a suposta pressão da Apple não seria apenas uma disputa empresarial, mas uma tentativa de colocar o governo americano contra o brasileiro.
“Isso é muito preocupante e representa uma ameaça à democracia nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa. A Apple tem agido de forma extremamente descarada e sem qualquer constrangimento nesse sentido. Esperamos que, um dia, ela seja responsabilizada. É vergonhoso que uma empresa americana interfira nas boas relações internacionais dessa maneira.”
Tim Sweeney, CEO da Epic Games
Apesar da gravidade da acusação, Sweeney não apresentou registros de lobby, comunicações internas ou documentos públicos que estabeleçam uma ligação entre a Apple e as decisões comerciais do governo Trump. Portanto, a tentativa de usar Washington para atacar o governo brasileiro permanece uma alegação do CEO da Epic Games, contestada pela Apple, e não um fato comprovado.
A Epic e a Apple travam uma disputa judicial e regulatória há anos sobre comissões, meios de pagamento e distribuição de aplicativos. O Showmetech já explicou a origem da briga que retirou Fortnite da App Store e dificultou sua instalação no iPhone.
Apple nega acusação
Em resposta enviada à Folha, a Apple afirmou que as declarações de Sweeney e da Epic Games são falsas. A companhia disse continuar trabalhando para apoiar desenvolvedores brasileiros e citou o acordo firmado com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que prevê comissões reduzidas, pagamentos alternativos e outras formas de distribuição de aplicativos.
A fabricante também declarou que coopera com órgãos reguladores brasileiros para preservar salvaguardas de privacidade e segurança. A empresa não reconheceu qualquer tentativa de influenciar a política comercial dos Estados Unidos contra o Brasil.
Outro ponto de conflito é a obrigação de reportar à Apple transações realizadas por meios alternativos. Sweeney chamou esse mecanismo de “spyware” e alegou que o trabalho técnico e as preocupações com monitoramento afastam outros desenvolvedores da loja da Epic. A Apple rejeita o termo e afirma que os relatórios servem para calcular pagamentos relacionados ao uso de suas tecnologias.
Disputa no Brasil
Em dezembro de 2025, o Tribunal do Cade homologou por unanimidade um Termo de Compromisso de Cessação proposto pela Apple. Pelo acordo, a empresa se comprometeu a permitir ofertas externas, meios de pagamento de terceiros e lojas alternativas no iOS brasileiro, além de limitar avisos que possam dificultar a escolha dos usuários.
O compromisso tem duração de três anos e previu até 105 dias para implementação das mudanças. Em caso de descumprimento total, a multa pode chegar a R$ 150 milhões e a investigação pode ser retomada. A abertura também foi detalhada pelo Showmetech na matéria sobre como o sideloading e as lojas externas funcionam no iOS.
A Epic Games Store estreou no Brasil com apenas Fortnite e Rocket League Sideswipe, ambos da própria Epic. Sweeney atribui o catálogo reduzido às taxas, aos relatórios de transações, ao número de passos exigidos para instalar uma loja alternativa e à indisponibilidade no iPadOS. O executivo afirmou que pretende levar essas reclamações ao Cade.
Até agora, portanto, há dois elementos documentados: a Apple assumiu compromissos de abertura do iOS perante o Cade, e a Epic considera que ainda existem barreiras à concorrência. A alegação de que a Apple teria interferido nas relações entre Brasil e Estados Unidos não veio acompanhada de evidências públicas e é contestada pela empresa.
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Fontes: Folha de S.Paulo, Cade e MacMagazine.