Google terá que responder ao jornalismo brasileiro por uso de ia

Google terá que responder ao jornalismo brasileiro por uso de IA

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O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) abriu uma investigação formal para avaliar se o Google está usando IA (AI Overviews) para se apropriar do valor do jornalismo brasileiro sem compensação

O Google terá que explicar ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica como seus resumos de inteligência artificial, os chamados AI Overviews, impactam o jornalismo brasileiro, após a abertura de uma investigação inédita sobre possível uso indevido de conteúdo e retenção de audiência dentro da busca. No centro do debate está a forma como essa ferramenta funciona e por que ela pode reduzir o tráfego de sites de notícias ao entregar respostas prontas ao usuário, tema que você entende melhor a seguir.

Como funcionam os resumos de IA do Google (AI Overviews)

Google terá que responder ao jornalismo brasileiro por uso de ia
Os AI Overviews são respostas geradas por inteligência artificial que aparecem no topo da busca, reunindo e sintetizando informações de diferentes sites. (Foto: Reprodução/Google).

Os AI Overviews do Google são resumos gerados por inteligência artificial que aparecem no topo da página de resultados de busca, com o objetivo de responder diretamente à pergunta do usuário sem que ele precise clicar em links. Essa funcionalidade utiliza modelos avançados de linguagem, como o Gemini, para sintetizar informações de múltiplas fontes disponíveis na web e colocá-las em formato de texto contínuo, organizado e de leitura rápida. Basicamente, o buscador deixa de atuar apenas como intermediário e passa a oferecer uma resposta pronta dentro da própria interface.

O funcionamento desses resumos parte da interpretação da intenção de busca. Quando um usuário digita algo como “o que é desenvolvimento sustentável”, o sistema identifica que se trata de uma busca informativa e gera um parágrafo explicativo com base em diferentes conteúdos indexados. O AI Overview pode trazer uma definição geral, exemplos e até contextualização histórica, frequentemente acompanhado de links menores para as fontes utilizadas. Esse processo ocorre em tempo real, combinando técnicas de processamento de linguagem natural com sistemas de ranqueamento já consolidados do buscador.

Ai overviews
(Foto: Captura de tela/Alexandre Marques).

Em buscas mais simples, o comportamento é ainda mais evidente. Ao pesquisar “como fazer arroz soltinho”, por exemplo, o AI Overview pode apresentar um passo a passo direto com medidas, tempo de preparo e dicas, resumindo conteúdos de sites culinários. Em vez de listar apenas links de receitas, o Google entrega uma resposta quase completa logo no topo da página. Esse tipo de resultado reduz a necessidade de navegação adicional, já que o usuário encontra a informação essencial sem sair da busca.

Ai overviews
(Foto: Captura de tela/Alexandre Marques).

Outro exemplo comum aparece em pesquisas comparativas ou de decisão, como “iPhone ou Android qual é melhor”. Nesse caso, o resumo gerado pela IA tende a organizar os principais pontos de cada opção, como sistema operacional, preço médio e ecossistema de aplicativos, oferecendo uma visão geral equilibrada. O conteúdo é estruturado para facilitar a leitura rápida, muitas vezes em tópicos ou pequenos blocos de texto, simulando uma curadoria automatizada de diferentes fontes.

Ai overviews
(Foto: Captura de tela/Alexandre Marques).

Assim, esse modelo reforça uma mudança estrutural na busca online, em que a retenção de atenção acontece dentro da própria plataforma, já que a resposta contextualizada é exibida antes mesmo dos links tradicionais, alterando a dinâmica de acesso aos sites de origem.

Questionamentos do CADE

Google terá que responder ao jornalismo brasileiro por uso de ia
O Cade investiga se os AI Overviews do Google prejudicam sites, portais e blogs ao reduzir acessos e concentrar audiência na própria plataforma. (Foto: Reprodução/Google).

A decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) de abrir um processo administrativo contra o Google marca um avanço relevante no debate sobre concorrência digital e uso de conteúdo jornalístico por inteligência artificial. O órgão quer entender se a empresa, ao implementar os AI Overviews, passou a operar além do papel de intermediária, assumindo uma posição de apropriação de valor sobre conteúdos produzidos por terceiros, especialmente veículos de imprensa.

Um dos principais pontos levantados pelo CADE é o chamado “abuso exploratório de posição dominante”, conceito do direito concorrencial que se aplica quando uma empresa dominante extrai vantagens desproporcionais de parceiros dependentes. No caso, a investigação busca avaliar se o Google estaria utilizando conteúdos jornalísticos para alimentar seus resumos de IA sem oferecer uma contrapartida econômica justa, indo além do tradicional redirecionamento de tráfego.

Esse debate ganha força com o fenômeno do zero-click, que ocorre quando o usuário encontra a resposta diretamente no buscador e não acessa o site de origem. Para sites, portais e blogs, isso significa uma possível queda de audiência, cliques e receita publicitária. Um portal de tecnologia como o Showmetech, por exemplo, pode produzir uma matéria completa sobre um novo smartphone, mas ver suas informações resumidas no topo da busca, reduzindo a necessidade de o leitor visitar a página original.

Além da perda de tráfego, o CADE também investiga a retenção de atenção dentro da plataforma. Quando o usuário permanece no ambiente do buscador consumindo o conteúdo sintetizado, o Google concentra não apenas a audiência, mas também dados comportamentais e oportunidades de monetização. Isso pode gerar uma assimetria econômica, já que os veículos arcam com os custos de produção jornalística, enquanto a plataforma captura parte significativa do valor gerado.

Camila cabral pires alves.
A conselheira do CADE, Camila Cabral Pires Alves, foi relatora do inquérito. (Foto: Pedro França/Agência Senado).

“No caso em exame, a dimensão exploratória pode ser percebida quando a plataforma amplia unilateralmente os usos econômicos do conteúdo jornalístico, internaliza parte de seu valor informacional e publicitário no ambiente da própria interface, controla a forma de devolução da contrapartida aos publishers e converte a dependência em relação ao acesso ao público em relação comercial assimétrica. Nessa moldura, a ausência de pagamento monetário direto não afasta, por si só, a preocupação concorrencial.”

Voto vista da Conselheira do CADE, Camila Cabral Pires Alves.

Outro ponto central é a diferença entre os tradicionais snippets e os AI Overviews. Enquanto os snippets exibem pequenos trechos com incentivo ao clique, os resumos de IA podem entregar uma resposta praticamente completa. O CADE quer entender se essa mudança representa uma inflexão na dinâmica da busca, com potencial de reduzir a relevância dos links e afetar diretamente a sustentabilidade dos produtores de conteúdo.

“Há, entre snippets e AI Overviews, elemento de continuidade econômica. Ambos se inserem em dinâmica pela qual o mecanismo de busca deixa de operar apenas como ponte entre usuário e site de origem e passa também a reorganizar, reter e reapresentar informação produzida por terceiros no interior da própria plataforma. Essa continuidade, contudo, não elimina diferenças relevantes entre as funcionalidades. Scraping, snippets e respostas generativas não se confundem, nem podem ser tratados como expressões equivalentes de uma mesma prática. A referência de Bostoen (2021) é útil justamente por permitir compreender essa trajetória sem reduzir fenômenos distintos a uma única categoria analítica.”

Voto vista da Conselheira do CADE, Camila Cabral Pires Alves.

A investigação também pretende analisar dados internos do Google, incluindo testes, métricas de uso e impactos no comportamento dos usuários. O objetivo é evitar que apenas recortes favoráveis sejam apresentados e garantir uma visão mais ampla sobre efeitos como taxa de cliques, tempo de permanência e mudanças na navegação. Essa etapa é crucial para medir, com maior precisão, se há deslocamento de valor econômico do jornalismo para a plataforma.

Por fim, o CADE busca compreender como essa dinâmica afeta a estrutura do mercado de informação digital. A preocupação não se limita à queda de acessos, mas envolve a possível dependência crescente dos veículos em relação às plataformas, a redução da autonomia econômica e o enfraquecimento da concorrência. O resultado desse processo pode abrir caminho para novas regras sobre remuneração de conteúdo jornalístico e redefinir a relação entre Big Techs e produtores de informação no Brasil.

O futuro do jornalismo brasileiro

Google terá que responder ao jornalismo brasileiro por uso de ia
A discussão pode levar a novas regras e modelos de remuneração pelo uso de conteúdo, forçando o jornalismo a se adaptar. (Foto: Reprodução/Universidade Tuiuti).

A movimentação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica acontece em um momento em que o próprio jornalismo brasileiro já testa caminhos distintos para lidar com a inteligência artificial. Um exemplo é o acordo firmado entre o O Estado de S. Paulo e o Google, que prevê o pagamento pelo uso de reportagens no treinamento e nas respostas do Gemini. Esse modelo aponta para uma possível saída baseada em licenciamento de conteúdo, em que veículos passam a ser remunerados diretamente pela utilização de seu material em sistemas de IA.

Por outro lado, há iniciativas que seguem o caminho judicial. A Folha de S. Paulo decidiu processar a OpenAI, responsável pelo ChatGPT, sob a alegação de uso indevido de conteúdo jornalístico e violação de paywalls. Esse tipo de ação evidencia que parte do setor entende que a disputa precisa ser resolvida nos tribunais, buscando indenizações.

A decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica pode funcionar como um terceiro caminho, mais estrutural, ao investigar se há desequilíbrio concorrencial no funcionamento de ferramentas como os AI Overviews. Diferentemente de acordos pontuais ou ações isoladas, uma eventual decisão do órgão pode estabelecer parâmetros para todo o mercado, afetando não apenas grandes jornais, mas também portais menores, blogs e veículos independentes que dependem do tráfego vindo de buscadores.

Esse cenário indica que o futuro do jornalismo brasileiro pode ser definido por uma combinação dessas estratégias. De um lado, parcerias comerciais como a do O Estado de S. Paulo tendem a se expandir; de outro, disputas judiciais como a da Folha de S.Paulo podem pressionar por regras mais claras. No meio disso, a atuação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica tem potencial para consolidar um novo equilíbrio, em que o uso de conteúdo jornalístico por IA deixe de ser uma zona cinzenta e passe a operar sob critérios mais transparentes de valor, concorrência e remuneração.

Qual sua opinião sobre esse caso envolvendo o CADE contra o Google? Conta pra gente nos comentários abaixo!

Veja também:

Fontes: Gov e CADE.

Revisado por Luís Antônio Costa em 24/04/26


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