REVIEW: Death’s Door, tudo que nasce morre

Review: death’s door, tudo que nasce morre
Com elementos das franquias Zelda e Souls, Death’s Door é um dos destaques do cenário indie com uma aventura que mistura mundo corporativo e aventura capa e espada

Neil Gaiman lá no final dos anos 80 foi o primeiro autor a trabalhar a figura da morte com profundidade. Mais que isso, a Morte em Sandman é uma das personagens mais carismáticas e queridas dos quadrinhos. A partir daí, outras obras reimaginaram a morte em novas perspectivas. Death’s Door é um desses casos. Aqui nós somos um corvo que trabalha como funcionário de uma repartição pública, em que a ausência da morte é o grande problema desse universo.

Review: death’s door, tudo que nasce morre
Era só mais um dia de trabalho na firma nova…

Desenvolvido pela Acid Nerve e publicado pela Devolver Digital, Death’s Door é um jogo de aventura com puzzles, inspirado nos jogos 2D da franquia Zelda, com direito a masmorras e labirintos em perspectiva isométrica. Há também uma leve inspiração nas franquias Souls e Metroid, mas tudo isso sem perder sua identidade própria.

História

O corvo que assumimos o papel é um novato nesse departamento responsável por coletar as almas das criaturas que morrem. Obviamente, algo dá errado e a alma que nós deveríamos coletar logo no início do jogo acaba escapando. Isso prende nosso herói no mundo dos vivos, tornando-o mortal. A aventura é basicamente para ele sair desse mundo, para tal ele deve cumprir alguns objetivos até chegar na alma que acabou perdendo. Simples assim.

O mais legal de Death’s Door é justamente essa maneira protocolar como a morte é tratada. Afinal, imagine o caos de um mundo em que a morte não existe mais? É curioso pensar que nosso trabalho — ceifar vidas — é, além de fundamental para chegar à ordem, transformador do que é um absurdo comum aos heróis de um jogo — matar inimigos — em algo aceitável.

Progressão

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Agora você está preso no mundo mortal e deve realizar uma série de missões para recuperar a alma que perdeu.

O jogo pede que você use flechas, magia e espadas em cada “fase”. Conforme você progride, os objetivos ficam gradualmente mais desafiadores e nuances táticas são necessárias para podermos avançar. Mas é aqui que a influência da franquia Souls é evidenciada. Visto que, apesar desses upgrades, nunca sentimos verdadeiramente que nosso personagem evolui. Na verdade, o jogo só vai dificultando enquanto nós melhoramos enquanto jogadores. Então, apesar de existirem melhorias nas habilidades do nosso corvinho, você só consegue finalizar o jogo se conseguir melhorar enquanto jogador.

Esse é um fator que pode afastar muita gente que estava gostando da experiência de Death’s Door até então, dado que, para muitos, após lutar tanto por um upgrade, e o mesmo não ser tão efetivo na progressão do jogo, isso pode fazer da experiência nada recompensatória. Bem como os checkpoints do jogo. Cada área tem apenas uma porta, e ao longo da exploração você abre vários atalhos que permitem voltar a ela. Passar pela porta te transporta para o escritório, onde você renova sua vida e pode subir de nível em uma de quatro categorias. Isso também ressuscita todos os inimigos, com exceção de chefes, arenas e monstros especiais.

Atmosfera

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Embora tenha um universo extremamente instigante, ele é muito auto-contido em nosso objetivo principal.

Se na concepção de ambiente Death’s Door pode parecer cheio de vida e muito rico, nem tudo aqui é explorado ao máximo, seja nas personagens ou nas possibilidades expansivas desse universo. Talvez seja proposital ou por alguma limitação orçamentária, afinal, lembremos que se trata de um jogo indie.

Direção de arte

Quando falo em limitação orçamentária, em nenhum momento quero dizer que o jogo é pobre ou a equipe da Acid Nerve tenha sacrificado alguns aspectos do jogo para ele ser publicado. Pelo contrário, esse é um dos títulos mais bem polidos dos últimos anos entre os indie, equilibrando aspectos técnicos e narrativos como poucos.

Toda experiência de jogo pode ser subjetiva de acordo com quem está jogando, mas existe uma unanimidade sobre Death’s Door: sua direção de arte. A visão inclinada da câmera aérea das paisagens 3D permite que você aprecie a arquitetura e o design de personagens surpreendentemente detalhados, mas bastante simples, assim como seu rico trabalho de sombreamento, realmente acima da média para um jogo indie.

Review: death’s door, tudo que nasce morre
A direção de arte de Death’s é um dos destaques do jogo.

O estilo visual não é exatamente como o claymation (técnica de animação baseada em modelos de plasticina, barro ou material similar), mas ainda tem esse brio. Tudo isso fundido a uma paleta de cores escura, evidenciando o cinza e o verde musgo, presente mesmo nos ambientes externos, que ajuda bastante na imersão desse mundo com ausência de vida.

Som

Contribuindo ainda mais para “entrar no mundinho” a mixagem de som de Death’s Door é outro destaque técnico da equipe da Acid Nerve. Ao lado da direção de arte, os sons ajudam a criar essa atmosfera e se precisar, o jogo ainda com uma linda e melancólica trilha sonora, cabendo como uma leva na trama e cenários apresentados.

Gameplay

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A gameplay é um meio-termo entre a simplicidade dos Zeldas em 2D com a fluidez de Hades

Essa simplicidade na evolução nas habilidades do protagonista, a falta de profundidade nos personagens ao redor dele, e até mesmo os aspectos de gameplay, como citado acima, deixam o jogo muito próximo de The Legend of Zelda: A Link to The Past, o clássico do Super Nintendo.

Outra fonte que Acid Nerve bebeu ao construir o jogo é Hades; mesmo não sendo um roguelike, ele tem uma fluidez de combate muito maior que o próprio A Link to The Past, sendo uma espécie de meio-termo entre os dois jogos citados.

Vale a pena?

No mercado dos indie um caminho comum é que alguns títulos acabam caindo no campo da mediocridade sob o peso de suas próprias influências. Em Death’s Door, a Acid Nerve combinou excelente combate e level design de universo, que consegue evocar o melhor de Zelda e Dark Souls para uma jornada que parece genuinamente nova, mesmo que não totalmente revolucionária. Esse é sem dúvidas um jogo que cairá no gosto dos fãs do gênero e poderá furar a bolha dos indie.

Death’s Door oferece entre 8 a 10 horas de jogo, com direito a extras após zerarmos e um fator replay recompensatório. Ele está disponível para Xbox One, Xbox Series X/S e PC.

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